Eu moro na palavra. Onde se gestam minhas flores e vivem todas as minhas mulheres.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
AGUADA
Há 3 longos dias não chove em mim.
Nada em mim.
Nada.
______________________
Imagem: Aguada de Estela Marina Díaz. Disponível em: http://www.artelista.com/obra/9222641241672913-aguadaxiii.html
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
EM VIAGEM A SÃO PAULO [ou quando meu coração mora nos olhos]
Quando vejo em viagem na estrada as árvores ao longe, na cumeeira das montanhas e morros, a coroa bonita desenhando um horizonte
de curvas e vai-e-vens e rendas e reentrâncias, e deixando passar a luz do
sol por de trás de seus troncos, paredão falho e generoso
Eu tenho vontade de
mandar beijos pra elas.
Quando eu vejo árvores
de todos os tipos, no meio de largo descampado, na beira da estrada, dançando
ao vento, caducas, tristes com folhagens chorosas e caídas, ou de verde
vigorosa copa e ramagens espertas, quando eu as vejo, as altas, as baixas,
as redondas, as magras, todas elas
Eu tenho vontade de
mandar beijos pra elas.
Eu sei que,
as árvores todas, o
gramado verdinho, os arbustos pequenos e gorduchos, os passarinhos, o gado no
pasto, as flores rosas, lilases, amarelas, as desbotadas, as murchas em breve
fruto, forjando sementes, aquele riacho comprido, tímido, manso, fininho, ou o outro
enorme, ávido e caudaloso.
Tudo.
Tudo.
Todos eles.
Também mereciam
beijinhos.
♥
♥
O ROMANCE
É paixão. Uma daquelas...
Sempre gostei, cresci com eles, em meio a eles, a peixinhos dourados, princesas encasteladas, barquinhos de papel. Era meu pai quem sempre me trazia, junto com os doces, toda vez que chegava em casa do embarque na plataforma de petróleo. Livros e doces, e eu adorava.
Mas foi só depois, agora, depois de mais velha que reconheço a devoção. Antes era divertido e alegre. Agora é doloroso, como são as paixões. Foi a História que me fez isso, que iniciou isso: foi achar que era possível entender os processos humanos. Foi cair nessa ingenuidade. Mas eu não gosto mais dos historiadores. A História não é possível. Ela pretende muita coisa, ela quer pretender. Mas não consegue.
Não, nem é isso. Ela rejeita sua humanidade. E eu não a reconheço.
Eu me apaixonei pela literatura.
Ando com ele pra baixo e pra cima. E espero o momento de retomá-lo. Criei os laços. Lamentei a morte de Tereza e Tomas e compreendi Sabina. Me alegrei por Franz. Sinto falta deles e gosto de saber como andam suas vidas naquela página. Conheço suas vidas, faço parte delas. Eles agora estão em Praga. Tereza sofreu por Tomas.
Foi assim também com outros. É assim com todos. Compreendo as histórias. Fico dentro delas, pra sempre, circulando. É como se Praga fosse aqui. Como se o mar, o sertão, a cidade, fossem aqui. Tudo aqui. Em todos os lugares onde estou, em mim. Como se Macondo fosse aqui.
E eu olho os livros, e os personagens estão lá, guardados, vivendo no livro. Dentro do livro. É lá dentro que neste momento, agora, agorinha, enquanto escrevo esse texto, estão se desenrolando suas histórias. Ele está fechado em cima da minha estante, mas olho o livro e eles estão lá: e o livro é transbordante e barulhento de tanta vida, com todas as suas pessoas carregadas de suas dores e alegrias. E eu sei que se abri-lo, a qualquer instante, os Buendías se desvendam novamente pra mim.
Porque nesse momento eles estão conversando e guerreando. E Melquíades está apresentando a daguerreotipia à Macondo. E depois disso eles se reúnem, e cantam e choram, e as mulheres dão à luz uma sucessão de novos Buendías. E sofrem. E isto tudo está acontecendo agora. Neste exato momento.
Enquanto Sabina se olha no espelho com seu chapéu coco e Tereza sofre em pesadelos com Tomas.
E Baleia definha doente até a morte por tiro, a espera de um mundo cheinho de preás gordos e enormes.
E eu tantas vezes choro.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
A BALARINA
Como
quando a gente dançava juntos
a vida toda.
Às
vezes nus.
Às vezes bêbados.
Encantados.
Eu despida de fada,
em noites inteiras
em que via você me olhar.
Com olhos de um nunca abandono.
Eu queria
ser muito branca,
muito linda,
muito despida.
Queria
ser linda, amada, deitada.
Quando
foi que seus olhos pararam de me olhar?
Como
faço?
Me explica.
Como fico bonita?
Se
eu me pintar?
Colorida
e alegre
Você volta a se apaixonar?
E
se eu me adornar de novo.
Você
me ama?
como uma coisa pequena, pequenininha?
como uma coisa pequena, pequenininha?
Singular.
Linda
de se guardar.
E
se eu dançar?
E se eu cantar na madrugada?
E
se eu ficar bêbada
e a gente se amar?
Você
vai me encantar de novo?
Diz, como é que faço pra me enfeitar?
Me diz
que cores usar.
Diz.
Diz.
Diz.
Diz onde eu fui parar.
Se
não estou mais nas sextas-feiras onde aguardo você.
Nas
noites sonoras e mágicas onde te encontrava
apaixonada.
Onde
estou?
E
se eu me pintar, você me vê?
Se
eu arrumar os cabelos, se colocar vestido, colar.
E
se eu sorrir?
Você
vai me olhar?
Se
você me levar a algum bar, me tirar pra dançar.
Você
volta a me olhar?
Se
eu pintar minha boca, minha vida.
Você
vai me olhar?
E se
me olhar e meus olhos ainda olharem você?
Você
volta a se apaixonar?
E
se eu te pedir
Você
olha pra mim?
Você
fica feliz?
DRUMMOND
O amor é bicho instruído
Olha, o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
C.D. de Andrade
[todo meu amor]
[todo meu amor]
POEMINHA ROMÂNTICO
Apaixona-me o modo como te encaro
A ti e ao que é tão teu
Vejo o riso de tua angústia calada
E nele vejo também o meu
Guarda, amor, guarda estes versos
De tão singela e amadora poesia
Pois é cantando o momento de outrora
Que me desprende a incoerente alegria
Querendo, de tão belo, eternizá-lo
A imagem do ser tão amado
Diante da qual tantas vezes sorriu o meu
Recorro a meu querido amigo Machado[1]
“Como te não amaria eu?”
Porém, fixa bem em teus olhos
Estas minhas doces palavras
Porque te falo nesta hora
E com tristeza em demasia
O homem que me possuiu um dia
Com tão grande contento e alegria
É o que vai te restar agora
Nesta tua vida de mim tão vazia
A ti e ao que é tão teu
Vejo o riso de tua angústia calada
E nele vejo também o meu
Guarda, amor, guarda estes versos
De tão singela e amadora poesia
Pois é cantando o momento de outrora
Que me desprende a incoerente alegria
Querendo, de tão belo, eternizá-lo
A imagem do ser tão amado
Diante da qual tantas vezes sorriu o meu
Recorro a meu querido amigo Machado[1]
“Como te não amaria eu?”
Porém, fixa bem em teus olhos
Estas minhas doces palavras
Porque te falo nesta hora
E com tristeza em demasia
O homem que me possuiu um dia
Com tão grande contento e alegria
É o que vai te restar agora
Nesta tua vida de mim tão vazia
[1] Machado
de Assis em carta à Carolina Novais
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=50084&cat=Artigos&vinda=S
Imagem: Jan Saudek, "Adoration" - 1988
Imagem: Jan Saudek, "Adoration" - 1988
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
PARA MARCOS,
COM AMOR.
Depois de uma longa noite de bebedeira, só restamos eu e ele na mesa do bar. Desde o início encantada com a beleza daquela figura, eu pergunto: - Vamos lá pra casa? A gente bebe umas mais e você dorme lá.
- Eu sou gay. Me disse sem muita comoção ou espanto.
- Não. Vou fazer de novo a pergunta - eu sorri - porque eu não te perguntei sobre sua definição de sexualidade, sua resposta não me serve. Vamos lá pra casa comigo? Ainda tenho algumas cervejas na geladeira, a gente bebe, conversa, e você dorme comigo, que tal?
Ele ficou meio atônito, mas depois riu e topou. E esteve na minha casa, ainda, com frequência e alegria, por uns 3 ou 4 meses mais. Até se apaixonar por um rapaz.
E eu, com o coração dolorido - saudade antecipada -, cheio de adeus e paixão sincera, abri a porta de casa pra ele, depois de nossa última conversa, e desejei que fosse muito feliz. Num beijo perturbado e quente, ele me abraçou muito e disse:
- Eu te amo.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
SEXTA
"Sexta-feira"
noite perdida
dentro afora
de mim
álcool maconha e um cachorro quente na esquina.
Rilke Leminski na sua cama
eu na sua cama
rilke e leminski pelados
não falo
não falo
mordo sua língua e choro
você fala sem parar
mas é bonito
eu canso.
eu na sua cama
você dentro
você Rilke Lemisnki
dentro de mim.
noite noite noite
eu sou essa noite toda
escura
eu não vou embora
nunca mais vou embora
dessa noite.
domingo, 2 de setembro de 2012
SEM TÍTULO
paixões:
Eu nunca. Em nenhum momento achei pudesse saber o rumo que minha vida deveria tomar. Em nenhum momento fiz demais planos, desejei longínquos futuros, fiz de caminhos seguros.
Em nenhum momento hesitei presentes, reclamei passados, enxerguei à frente. Eu nunca quis ser, eu sempre fui. E ser já é uma força por demais doída (doida) à compreensão.
E ser já é suficientemente raro e dificil pra fazer desejar ainda saber o vir-a-ser. E justo de tanto ser, eu não sei calcular futuros.
Mas. Impelida a futuros sou, porque isso também é. E na cobrança dos que vivem no tempo, sobre ele sou frequentemente obrigada a dizer. Então digo, à exigência destas respostas: hoje serei. demasiadamente triste e incolor. apenas o esforço em tornar-me algo do que no futuro deverei ser.
Hoje estou sem vida e sem graça. Hoje estou. não estou. Nada. nada Assim é possível? vir-a-ser? E eu me esgoto, derramo, me dramo
MNEMOSINE (NÃO HÁ UM TÍTULO POSSÍVEL PARA ESSE TEXTO)
Acordou.
Como todas as manhãs eu a vira acordar: os cabelos dando-lhe a aparência
monstruosa, o lado direito da cara amassado e marcado com as pequenas
florzinhas da fronha. Como num decalque, todas as noites a florzinhas passavam
da fronha ao rosto. Levantou-se e pela vigésima vez este ano, catou com um pé o
chinelinho rosa que ela mesma chutava para debaixo da cama quando levantava na
madrugada para fazer xixi. No banheiro olhou-se no espelho. Mas não fazia mesmo
questão de se reconhecer. Lavou o rosto e, como em todas as manhãs, pensou se
escovaria os dentes antes ou após o café. Ela parou o gesto, qualquer gesto, e
pensou nisso. Então decidiu deixar para depois, assim como havia decidido ontem
e todos os dias até aqui.
Será que
poderia imaginar, dentro desta rotina de coisas pensadas, com o que de
inesperado poderia lhe saudar a própria vontade? Talvez fosse melhor que não
pensasse nisso. Não agora, porque ainda há o café a fazer, ainda tem de
prepará-lo até começar sua história. A historia começaria verdadeiramente após
o café.
Seguiu em
passos molengos para a cozinha. Observou da janela a ainda madrugada
despedindo-se tediosa lá fora. Separou sonâmbula os biscoitos, a manteiga, os
talheres e pôs a água para ferver enquanto preparava o pó. Assoviou uma canção:
ela estava despertando! De repente ocorreu-lhe um pensamento: onde estaria a
pasta com as fotos de sua vida inteira? Sua vida inteira juntada numa pasta que
ela não sabia mais onde estava. Sua vida inteira cabia ali. Depois do café, foi o que decidiu. Depois do café não, depois do café eu escovo os
dentes, ecoou o rastro do primeiro
pensamento. Minha vida inteira!, falou mansinha. E até então, não havia
pronunciado palavra. E foi sentar-se calada junto dos biscoitos.
Abriu o armário
do banheiro com muito mais rapidez do que presenciei faze-lo até aqui. Arrumou
a pasta na escova com algum desleixo e espumou a boca. Parecia ansiosa.
Bochechou apenas duas vezes ao invés das três que lhe era de costume e voltou
ao quarto. Parou na porta e voltou a cozinha. Voltou ao quarto arrastando a
cadeira com a qual pretendia ascender ao alcance das fotos da sua vida inteira.
Então subiu na cadeira e abriu uma das portas de cima, a inatingível parte do
guarda-roupa antigo. Gostaria que pudessem ver o que eu vi: um emaranhado de
coisas, tão emaranhadas, tão emaranhadas, feito sentimentos confusos. Caixas,
papéis, pastas. Bolsas e mais papéis, todos tão embolados que só o que se via
era a ponta de um, o meio de outro, e outro, e outro, e outro, ora por cima,
ora cortado, ora entremeado por aqueles outros. Sobrando entre toda aquela
desordem, inteirinha, intacta, como se tivesse sido esquecida ali para ela,
estava a pastinha azul de sua vida.
Sentou-se
na cama e abriu a pasta e sua alegria
era tão evidente, que as fotografias pareciam sorrir para ela. Despejou os
retratos sobre o espaço entre as pernas e percebeu que não havia ali nenhuma
ordem, estavam todos misturados: os da infância, da idade adulta e também de
amigos e familiares. Era uma quantidade tão grande de gentes que ela lembrou de
si, lembrou que até ali vivera 42 anos e pensou que aquela criança que sorria numa foto por cima das outras não
era ela. Reconhecia o vestidinho rosa, o irmão de mãos dadas e o olhar
aprovador e feliz da mãe por detrás deles. Mas aquela criança não era ela.
Ressentiu-se. Desejou lembrar de tudo. Mas de tudo mesmo e começou a revirar as
fotos uma a uma, com certa raiva até. E viu novamente a menina do vestido rosa.
Viu a menina em outros vestidos e encontrou semelhança entre ela e uma jovem
que também aparecia ali entre outros jovens e depois num beijo-abraço com um
namorado. E foi vendo. D repente, sentiu um chorinho leve chegando e reparou
que ele chegava trazido pela memória: a menina do vestido rosa era ela! Ela
sabia! Havia nelas duas e na jovem do beijo-abraço alguma coisa igual. E foi
revirando as fotos, e foi ficando igual. E se deixou chorar um pouquinho. E
quanto mais olhava, mais lembrava.
Correu e foi
se olhar no espelho. Queria ter certeza que realmente poderia ser a menina das
fotos. Levou junto a criança de rosa e a jovem do beijo. Na frente do espelho
ajeitou os cabelos. As florzinhas da fronha não estavam mais decalcadas no
rosto. Olhou-se e olhou as fotos, uma em cada mão. Sorriu. Era ela sim – mas
bem poderiam ser outras pessoas –, pensou. Poderiam, mas não eram. E o que era
aquilo então? O que é que via ali diante do espelho e nas mãos? O que a ligava
àquelas pessoas, ora estranhas, ora parte dela? Sentiu-se confusa e achou que
precisava lembrar-se de mais. Precisava lembrar de tudo. De tudo. Era
necessário então, ordenar as fotos, calculou. Separá-las numa ordem cronológica
vital, quem sabe assim ela seria capaz de entender? Quem sabe assim não
houvesse mais dúvidas? E começou, foi separando: as da infância primeiro, logo
depois viriam as da adolescência e depois as da idade adulta. Talvez enquanto
fosse separando, pudesse ir recordando os detalhes, os pedacinhos de vida
esquecidos.
Em que momento
ela se recordaria do nexo entre ela e aquelas pessoas eternizadas? Onde estaria
guardada essa coisa? Ela acreditou que ordenando as fotografias ela surgiria.
Será que não percebia, ali sentada na cama, como agora a vejo, que também ela é
uma fotografia? Mas ela estava procurando.
Assim, foi
separando do monte maior, um outro montinho, aonde ia pacientemente despejando
as fotos de criança. Foi revirando e encontrou um bebê. Então decidiu que este seria o primeiro de
todos os retratos: um bebê inchado. E a cara dele até poderia se parecer com
aquela que não fizera questão de reconhecer quando acordara, de manhã cedo, ao
se olhar no espelho. Ficou ali, cheia de uma ternura incontrolável, olhando
aquele bebê enrolado numa manta cujo um nome escrito em letras bordadas
martelava seus pensamentos: Matilda! Matilda! Ficou assim, consternada até que
ouviu o choro do bebê. Um choro esganiçado. Sentiu um arrepio horroroso, um
remexer nas entranhas. De repente percebeu que o choro do bebê vinha dela
mesma, de seu próprio choro. Ela também estava chorando. Experimentou o frio,
cólicas e tremores e se lembrou que há pouco desejara lembrar de tudo. Ficou
quietinha, imóvel, olhando a foto do bebê de cara inchada. E chorava. É a
memória que traz o choro, e, quando acontece, a gente fica igual, fica
semelhante. Foi recordando, recordando, devagarzinho e sonolenta, recordou. Foi
um assombro! Ela se lembrava! Lembrava daquele exato momento em que fora
embrulhada na manta bordada Matilda. Seria possível? Sentiu um calor gostoso e
ficou ali se esforçando pra ser aquilo.
Estava mesmo muito assustada mas sentiu que já
não podia deixar de lembrar. Contudo, o espanto maior ainda estava por vir:
seria no meio dessa sensação deleitável, embrulhada na manta-Matilda que lhe
viria a revelação. No instante seguinte, ainda embalada pela comoção
acolhedora, começou a sentir-se fraca. Foi sentindo-se tão fraca e pequena, foi
diminuindo, diminuindo até que, de repente, sua existência diminuta começava a
ser tomada por uma vertigem desnorteante. Foi enfim invadida, ao mesmo tempo
por uma sensação de fim de mundo, uma falta de coisas concretas e uma dorzinha
miúda pelo corpo. – Assim deve ser nascer! – balbuciou assustada e sem muita
consciência. E com a vontade descontrolada continuou se lembrando. Estava
recordando o próprio nascimento e isso lhe parecia uma coisa sem nenhum
sentido. E ela ia recordando, e se encolhendo e aos poucos, a dorzinha miúda ia
se transformando numa coisa, numa vontade de sei lá o que, e a cabeça, pouco
pensada, era só uma curiosa inexistência. E o corpo? o corpinho era tão
molinho, tão molinho, que parecia não poder fazer mesmo outra coisa senão ser
cuspido do ventre quente onde se encontrava. Até que chorou. Explodiu em
pranto. Chorou muito, muito mesmo. E as lágrimas iam se misturando às águas do
parto.
Foi então se
acalmando, silenciando soluços, e pondo em ordem os sentimentos. Estava
apavorada. Nunca presenciara tamanho encantamento. Não conseguia pensar, não
conseguia nem mesmo saber a que ordem de coisas aquilo pertencia. Havia somente
uma pergunta desordenada e flutuante no meio de tanta excitação: o que lhe
aconteceria agora? Sentiu um cansaço enorme. Nascer era um esforço doloroso.
Queria dormir um pouco. Afastou com cuidado os dois montinhos de retratos e
deitou-se ao lado deles. Aos poucos foi pegando no sono. Ela ia dormir mas não
faria muita questão de lembrar dos sonhos que tivesse agora. Sua história havia
realmente começado.
SOBRE O AMOR
Então eu disse: não, não vá!
Não me dê ordens!, ele respondeu.
Então, ok. Vá onde quiser, meu caro, porque eu sempre fui onde quis. Só não venha me dizer depois o que eu preciso fazer por você. Eu disse isso cheia de fé e orgulho, mas ele já tinha ido.
E me perguntei por mais de uma
noite e ainda durante muito tempo: que tipo de relação devo estabelecer com um
homem? Se não me causa angústia tê-lo desse jeito, haveria mesmo algum problema
nisso? Sim, eu tenho meus conflitos. Nem sei se é esse... não chega a me causar
dor. Por algum motivo eu rio deles. Ainda que este eu não consiga resolver.
Este em que me coloquei agora.
Custo a pagar no sono. Amo o
amor. Este mesmo que acredito que inventei. Inventei? O que me faz acreditar
que amo alguém senão eu mesma? Senão essa crença na possibilidade que se torna
essa própria invenção? Quem sou eu e quem é o outro? Este que me deveria ser
completamente estranho, mas que amei? Quem é? O que se tornou agora? Por que,
ainda depois de tudo, gostaria de amá-lo? "Esse romantismo classe média é
que é bonito na gente", você me disse um dia.
Será que um dia vou deixar de
amá-lo no que ele foi? Será que irei transformá-lo numa coisa qualquer que não
me desperte nem um amor e então ele deixará de ser, de um jeito que se torne
impossível amar, ou desnecessário, ou apenas inexistente? E isso é possível? É
viável? É assim?
Vou transformá-lo em outra coisa.
É impossível eternizar qualquer coisa... é simplesmente impossível, o eterno!
Apenas a memória é coerente.
Mas eu o amei. Da forma como se
pode amar a um homem desse tipo. Desde que o conheci ele sabia que seria
assim. Tinha de ser assim. "Eu cuido de você" foi o que ouvi. E, na
verdade, toda vez que me deitava com ele era isso que esperava. Poucas vezes
desejei outra coisa. Nós quisemos assim. Naquela noite, exatamente naquela
noite, quando te vi, eu quis que você fosse isto. Esse encanto em que me
coloquei, isso tudo, começou ali. Antes disso eu não sabia de nada. Muito pouco
me havia sido oferecido.
É estranho lembrar de sua beleza
naquela noite. O que foi que eu vi? Eu vi a paixão. Ela própria inflamada. Naquela pessoa dolorosa.
Não sei se chega a ser uma dor
essa ausência. Eu amo o amor. E me amo quando estou nele.
E agora isso.
Ele me perguntou se não me
apaixonaria de novo. Eu também já havia me perguntado. Ofereci-lhe o beijo
à boca com o entusiasmo e a eloquência abafada daqueles que fogem da resposta.
SE EU ME CHAMASSE RAIMUNDO
E ele subiu, subiu, subiu. Subiu
até lá em cima donde as nuvens vêm alisar os cabelos. E lá em cima, ele tirou
do bolso todo o dinheiro e tudo que ele podia comprar (sentiu vontade de ficar leve, bem
leve) e ficou lá, pasmado, feito coisa que via assombração. Assombração que
nada: ele viu foi a circunferência do mundo! Ficou lá parado, com o coração em
desatino, em explosão. Olhou, olhou, olhou tudo bem olhado. Olhou a
curvinha da terra lá longe, no horizonte, e sentiu uma vontade muito grande de contar
pra alguém que era verdade, que o mundo era bem redondo mesmo.
QUALQUER LUGAR
Encostou a cabeça no vidro da
janela e achou que fosse cochilar. Pensava sobre o período que antecede a
transformação. O coração, ouvira dizer que estava partido. Sentiu uma saudade
morna que aqueceu-lhe a ponta dos dedos. Como as coisas podem acabar? -
suspirou baixando os olhos nas próprias pernas. Deve ser a ventania - e olhou
lá fora o lixo revirado e a chuva fina que chega antes do temporal.
Velozes e coloridas fitas de luz
riscavam-lhe a visão enquanto observava tranquila a correria do casario que
passava pela janela. Não vou dormir - pensou. Já sabia bem que a época dos
romances estava acabando, mas sentia ainda a dor fininha e miúda que acomete os
apaixonados. E ela parecia circular, vermelha e latente, muitas vezes sem que
nem mesmo percebesse que era parte sua.
Mexeu-se no banco e resolveu
ficar inquieta. Todos os dias, há quatro anos fazia este mesmo caminho. Como
poderia haver coisas que ainda não conhecia? Elas estavam lá e sabia que por
mais que olhasse não iria percebe-las. Talvez não ainda. É estranho como as
coisas incomodam: durante todo tempo, sentiu essa saudade vazia que não podia
explicar. Uma saudade inviolada que chegava junto com ele. E toda vez que ele
vinha tocá-la.
Foi escorregando o corpo pelo
assento e colocou os joelhos nas costas do banco da frente. Ficou ali
encolhida, quase escondida, como quem aguarda alguma pequena surpresa. Olhou de
esguelha o aguaceiro feroz que caía lá fora. Dentro do ônibus ela estava
protegida, apesar de ter tanta certeza que tempestades como esta costumam
trazer e levar tantas coisas que ela não saberia nem bem se podia gostar ou não
delas. É porque as coisas nunca ficam iguais depois de um temporal - pensou bem
pequeno e baixinho dentro do seu esconderijo. E antes de cochilar foi invadida
por um tremendo medo-amor das tempestades.
SEM TÍTULO
Parece que preciso decidir alguma coisa, e urgente.
Sempre carreguei essa sensação. Esta noite acordei com medo de morrer. Tive
vontade de mudar de casa, de não sair mais de dentro dela, de chorar. Tive medo
até do escuro, da luz apagada, exatamente como uma memória infantil. Logo eu
que, na duvidosa empáfia de minha autodescrição, me configuro na incredulidade
dos espectros que assombram os homens. Mas não tinha explicação, aquele medo.
Era medo só. E não havia transcendência nenhuma ali (apesar de sentir às vezes
o pânico quase querência dos descrentes em se deparar com ela), só meus
fantasmas, estes mesmos que me constituem.
Não era pra eu
estar aqui. É essa a impressão. E onde então? Isso acompanha a urgência da
decisão. Mas onde então? Não sei... a angústia pelo medo da morte fizeram
incisivas a amofinação e a urgência. E me lembrei do começo. De um dos vários
começos da vida. A lembrança sempre transforma o acontecimento num limite. Mas
não foi precisamente do medo infantil que me lembrei, nem da sensação de
espanto e sofrimento. Foi de mim mesma, de quando comecei a duvidar.
duvidar que
existe Deus.
duvidar que
existe um destino.
a
sensação do que poderia não ser.
O horror mesmo
da morte como não existência.
CENTRO DA CIDADE
Estava bastante calor e não
corria nenhum ventinho. Ela sentia um tremendo nervoso da blusa de viscose
colada no suor das costas e daquele bafo infernal que subia do chão. Os cabelos
mal arrumados, num improviso de rabo de cavalo torto e despenteado, davam a
exata impressão da aflição que ela sentia. Cruzou a pista e parou na próxima
calçada. Olhou a luz vermelha do sinal de trânsito. Piscou pra ela e no tempo
de abrir os olhos ela já havia se tornado aquele verde irritante. Atravessou apressada
na obrigação de acompanhar o ritmo da cidade.
Seguiu pela rua larga e sem muito
drama mantinha a cabeça baixa e os olhos fitando o chão. Ia vendo os sapatos,
tênis brancos, scarpins pretos cor de rosas e caramelos, sandálias de todo tipo
e os sapatinhos miúdos de crianças em passinhos ligeiro apertados. Ora via a
ponta dos próprios pés: as unhas curtinhas e limpas e os dedos em escadinha
dentro da sandália alta de tiras pretas. Os pés que queria, nunca teriam
aqueles joanetes velhos que carregava desde os tempos de menina bailarina.
Tentou apagar os joanetes enchendo o peito de ar e erguendo a cabeça pra frente
mas sentiu como se o calinho estivesse num latejar constante: não havia jeito
de negar o que era.
Parou bem de frente à porta de um
daqueles prédios enormes que desviam os ventos pra outros lugares. O reflexo da
mulher de saia preta e blusa branca de botões parou também. Ficou um tempo
parada, olhando o espelho da porta de vidro e pensando no que tinha que fazer
ali. Por um momento achou que pudesse esquecer. Foi se aproximando da mulher
reflexo até tocá-la. Com a ponta dos dedos fez leve pressão no encontro com os
dedos da outra e então a porta se abriu. O hall do prédio engoliu-a rápido e ela se
sentiu melhor porque lá dentro estava gelado e vazio: só um porteiro cochilando
sentado e os três elevadores antigos. Com um barulho qualquer fez despertar o
porteiro num sorriso amarelo. Devolveu um sorriso afável e reconfortante e
aguardou que ele terminasse no interfone e lhe desse a autorização: "sala 9001", ela antecipou.
- Pode subir. Ele está
esperando. Sala 9001.
- Obrigada. Resignou-se a responder tão baixo
para não saber mesmo se ele poderia ter escutado. "Será que escutou? Sala
9001", pensou de novo.
Caminhou mais um pouco e outra vez deu de cara com a mulher de saia preta e blusa branca no filete de espelho que havia na parede entre as portas dos elevadores. O espelho era fino e a mulher estava cortada ao meio. Ela não era bonita. Definitivamente não era. Mas havia nela qualquer coisa de que se agradava. Talvez o ar de menina frágil e a aparência desesperada. E isso também agradava aos homens: o porteiro não lhe tirava os olhos. Entrou no elevador, apertou o comando e enquanto olhava a porta restringi-la de vez naquela caixa medonha - tinha pavor de elevadores - , soltou os cabelos e ajeitou-os num novo rabo de cavalo. Preocupou-se desta vez que este não ficasse torto. Baixou a cabeça e viu novamente os joanetes. Encolheu os dedos num movimento quase involuntário e enquanto o elevador subia lembrou-se dos tempos de bailarina: ele a deixara com pernas firmes.
Caminhou mais um pouco e outra vez deu de cara com a mulher de saia preta e blusa branca no filete de espelho que havia na parede entre as portas dos elevadores. O espelho era fino e a mulher estava cortada ao meio. Ela não era bonita. Definitivamente não era. Mas havia nela qualquer coisa de que se agradava. Talvez o ar de menina frágil e a aparência desesperada. E isso também agradava aos homens: o porteiro não lhe tirava os olhos. Entrou no elevador, apertou o comando e enquanto olhava a porta restringi-la de vez naquela caixa medonha - tinha pavor de elevadores - , soltou os cabelos e ajeitou-os num novo rabo de cavalo. Preocupou-se desta vez que este não ficasse torto. Baixou a cabeça e viu novamente os joanetes. Encolheu os dedos num movimento quase involuntário e enquanto o elevador subia lembrou-se dos tempos de bailarina: ele a deixara com pernas firmes.
- Olá! Boa tarde! Como vai? Ouviu
a voz vindo de trás.
Virou-se e, no momento em que ia
tocar a campainha, viu, numa proximidade suficientemente incomoda, o feliz homem
educado:
- Fui ali...
- Hum-rum. Consentiu com a
cabeça liberando-o da explicação.
- Vamos entrando. E ela o
seguiu. Você está bonita hoje.
Observou o escritório, já
estivera ali inúmeras vezes mas ele nunca lhe parecia familiar. Colocou a bolsa
em cima de uma cadeira, sentou-se sobre a mesa e permaneceu observando o homem
se movimentar à vontade.
- O que vai querer? Ela esforçou-se
em demonstrar confiança. "Era essa a pergunta que faziam?" Pensou .
- Quer beber alguma coisa?
- Não obrigada. O que vai
querer? E gostou de perguntar isso mais uma vez.
- Vou beber alguma coisa,
importa-se?
Ela fez que não com a cabeça e
sorriu. Ela sabia bem o que ele queria.
- O que vou querer? Ele riu. Foi
tirando a carteira do bolso. Tratamos disso agora?
- É melhor... Conforme o
combinado. E já começava a se sentir muito segura e bonita também.
Ele foi se aproximando,
entregou-lhe o dinheiro e se ajoelhou. Ela observava os movimentos tranqüilos
do homem, e eles foram lhe revelando que todas as impressões que formulasse
sobre aquilo que estava acontecendo estariam envolvidas num mistério tão
grande que não poderiam jamais correr o risco de nenhum tipo de explicação.
Via-se de novo, agora sobreposta à paisagem cinzenta fixada no vidro da janela
de frente pra mesa. E via-se numa beleza extraordinária. Continuou olhando
atenta o que ele fazia: o homem vagarosa e gentilmente desabotoava suas
sandálias. E neste momento ela se amava muito, e num sentimento de poder muito
incrível, como se o ar que lhe entrava pelo corpo estivesse cheio de um doce
amornado e inexplicável que preenchiam os pensamentos d'umas futilidades muito
felizes e deliciosas. Depois de tirar as sandálias, deu-lhe um beijo em cada pé
e ergueu-se. Ela percebeu que ele passou muito de raspão o olhar na abertura
que a saia deixava entre suas pernas. Então se achou mais bonita ainda. O homem
beijou sua boca de leve, como se obedecesse a um ritual, e desabotoou a blusa
que ela num movimento lindíssimo de tão delicado terminou de tirar. Ele passou
os braços pelas suas costas procurando fecho, enquanto que, prevendo que queria
se livrar da parte de baixo da roupa, ela saltou da mesa deixando cair a saia
sobre os pés descalços. Já não se incomodava com os joanetes. As pernas eram
extremamente bonitas agora. Serviu-o como sempre achou que devem fazer as putas
e quando terminou de fazer o serviço ouviu o homem pedir-lhe o que já esperava:
- Agora dança pra mim Cláudia.
Dança?
Encheu-se de uma vulgaridade
confiante, vestiu suas roupas bem rapidamente, passou a mão no dinheiro que
havia ficado em cima da mesa, fez questão de conferir e, olhando bem nos olhos
daquele homem a quem se dedicara em amor por tanto tempo, e como se pudesse
punir-lhe por toda mágoa que ele causara cuspiu-lhe na cara um desdém
inventado:
- Não sou paga pra dançar.
Sorriu cínica e iluminada.
Abriu a porta, deixou pra trás o
sujeito com cara de bobo e seguiu se amando. Foi levando junto de si um rastro
invisível de joanetes, bailarinas, pernas, mulheres e amores mal resolvidos.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
NA ORDEM DO DIA
Gargalhava de.
braços abertos, pouco
afastados. Do corpo, as mãos espalmadas pra cima, os olhos bem abertos, olhando.
Pra si, pra dentro de si, ria alto. Em meio ao lixo, às carroças e seus
catadores, ao pequeno trânsito de bicicletas na calçada. Alheia aos transeuntes
e às pessoas paradas que esperavam, como ela, automáticas, seus ônibus naquele
ponto, ria. Louca e incompreendida da
própria condição, enquanto o sangue, muito sangue, escorria pelas pernas. Depois
de já ter lambuzado quase toda a saia e as mãos, as que tentaram contê-lo, parou
de rir meio zonza. Com a cabeça meio torta. Como os olhares que a estranhavam, recolheu
e guardou no coração toda a culpa.
Suspirou?
sentiu os
olhares de escárnio perfurarem sua sobriedade. Atravessaram-na, acachapando a
possibilidade de que ela fosse de seu coração pra fora. Então, ela também se
guardou em si, sem nenhum pudor ou vergonha, apenas com cuidado.
E moveu-se
sangrando um rastro
que ninguém ousaria, e enquanto seus ocasionais inquisidores seguem – de manhã,
cedo, pras suas obrigações – ela partia. Embora audaz, num ritmo muito mais
lento e outro que o tempo das interrogações despertas que morreriam rumo às
contingências do dia.
O CÃO
Ele estava ali sentado, corpo ereto, orelhas espertas, cauda em riste, olhar atento ao longe desde o horizonte, ali, estático, quieto, sentinela na entrada do prédio. Já estava ali há tempos, e pretendia ficar ainda mais, por quanto fosse necessário. Sim, convicto. Ele ficaria.
Ele não sabia exatamente o que tinha acontecido, nem de rumores. ficou confuso com o movimento, mais cedo. gente andando pra lá e pra cá, gente que nunca tinha visto. um movimento. desorientado, aturdido. não compreendeu palavras. Vou latir. vou pra lá e pra cá. corro. não importava, mas sentiu o cheiro estranho e pôs-se em alerta. depois. ali. parado. ficou.
Ele sabia que a universidade e aquelas pessoas precisavam dele.
MABELLE & LUIZA
A miserável não tinha nome. Acordei.
Não tinha nome, nem telefone, nem uma cara, um rosto, a miserável tinha. Porque eu estava bêbada, completamente bêbada. Mas a miserável saiu de manhã cedo, antes d'eu acordar, largou todo seu cheiro na minha roupa de cama. Porra, que dor de cabeça, caramba.
Também fez o café da manhã e preparou a mesa. Num bilhete de guardanapo, com lápis de olho, me escreveu meia dúzia de delicadezas, amei tudo nos esbarramos e uma poesia do Rilke
um beijo,
Luiza.
Tudo o quê meu deus? Não lembro.
O GATO
Uma dor tão intensa.
Não. não deu tempo. se encerrou.
Nada.
Nada.
E toda ternura deu lugar a nada.
Antes.
sorrateiro, agachadinho, gorducho e peludo, surgiu veloz por
debaixo do carro. Ainda parou no
meio-fio da calçada, deu uns três miados e.
Nunca saberemos por que atravessou.
De repente
Zás.
Nunca saberemos por que atravessou.
De repente
Zás.
o monstro atropelou-lhe os quartos e deitou-lhe e.
então.
Pof!
o que vinha logo atrás esmagou a cabecinha ainda erguida que
balançava zonza sobre o corpo no chão.
EU, PASSARINHO
Fechou os olhinhos miúdos de passarinho, sentiu o solzinho morno esquentar o flanco, eriçou a plumagem um pouco pra sentir o calor entrar nas penas até a pele, meneou, meneou, manejou o vôo, se deixando cair um pouco.
Sentiu o vento manso coçar carinhoso sua barriga, fechou de
novo os olhos e achou que era gostoso e que era feliz e no seu piado interior
de bicho saturado do cotidiano concreto da cidade pensou
como é bom voar por sobre os prédios.
(e ir parando nos beirais)
10 CONTOS SOBRE O ALTO-MAR
Navio
Como deve ser a noite em um
navio?
Conto II
Depois de seis meses pagando as
prestações, enfim Mabelle ia por seus pés naquele Cruzeiro.
***
O mergulhador e a arraia
Surgiu fugidia e arisca a arraia
assustada entre as pedras ao sentir o mergulhador.
Conto
Era seu primeiro dia na plataforma
de petróleo.
***
Conto V
Olhou da janela o horizonte, viu a embarcação luminosa e imaginou.
***
Conto de amor
Descamou o peixe com respeito e
afeto, aquela consideração metafísica que se tem pelas coisas que vêm de longe.
***
Alto-mar (último conto)
Em sonho, navegava.
Assinar:
Comentários (Atom)



















