segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

AGUADA



Há 3 longos dias não chove em mim.

Nada em mim.

Nada.



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Imagem: Aguada de Estela Marina Díaz. Disponível em: http://www.artelista.com/obra/9222641241672913-aguadaxiii.html


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

EM VIAGEM A SÃO PAULO [ou quando meu coração mora nos olhos]




Quando vejo em viagem na estrada as árvores ao longe, na cumeeira das montanhas e morros, a coroa bonita desenhando um horizonte de curvas e vai-e-vens e rendas e reentrâncias, e deixando passar a luz do sol por de trás de seus troncos, paredão falho e generoso

Eu tenho vontade de mandar beijos pra elas.

Quando eu vejo árvores de todos os tipos, no meio de largo descampado, na beira da estrada, dançando ao vento, caducas, tristes com folhagens chorosas e caídas, ou de verde vigorosa copa e ramagens espertas, quando eu as vejo, as altas, as baixas, as redondas, as magras, todas elas

Eu tenho vontade de mandar beijos pra elas.

Eu sei que,

as árvores todas, o gramado verdinho, os arbustos pequenos e gorduchos, os passarinhos, o gado no pasto, as flores rosas, lilases, amarelas, as desbotadas, as murchas em breve fruto, forjando sementes, aquele riacho comprido, tímido, manso, fininho, ou o outro enorme, ávido e caudaloso.

Tudo.

Tudo.

Todos eles.

Também mereciam beijinhos.




O ROMANCE




É paixão. Uma daquelas... 

Sempre gostei, cresci com eles, em meio a eles, a peixinhos dourados, princesas encasteladas, barquinhos de papel. Era meu pai quem sempre me trazia, junto com os doces, toda vez que chegava em casa do embarque na plataforma de petróleo. Livros e doces, e eu adorava.

Mas foi só depois, agora, depois de mais velha que reconheço a devoção. Antes era divertido e alegre. Agora é doloroso, como são as paixões. Foi a História que me fez isso, que iniciou isso: foi achar que era possível entender os processos humanos. Foi cair nessa ingenuidade. Mas eu não gosto mais dos historiadores. A História não é possível. Ela pretende muita coisa, ela quer pretender. Mas não consegue.

Não, nem é isso. Ela rejeita sua humanidade. E eu não a reconheço.

Eu me apaixonei pela literatura.

Ando com ele pra baixo e pra cima. E espero o momento de retomá-lo. Criei os laços. Lamentei a morte de Tereza e Tomas e compreendi Sabina. Me alegrei por Franz. Sinto falta deles e gosto de saber como andam suas vidas naquela página. Conheço suas vidas, faço parte delas. Eles agora estão em Praga. Tereza sofreu por Tomas.

Foi assim também com outros. É assim com todos. Compreendo as histórias. Fico dentro delas, pra sempre, circulando. É como se Praga fosse aqui. Como se o mar, o sertão, a cidade, fossem aqui. Tudo aqui. Em todos os lugares onde estou, em mim. Como se Macondo fosse aqui. 

E eu olho os livros, e os personagens estão lá, guardados, vivendo no livro. Dentro do livro. É lá dentro que neste momento, agora, agorinha, enquanto escrevo esse texto, estão se desenrolando suas histórias. Ele está fechado em cima da minha estante, mas olho o livro e eles estão lá: e o livro é transbordante e barulhento de tanta vida, com todas as suas pessoas carregadas de suas dores e alegrias. E eu sei que se abri-lo, a qualquer instante, os Buendías se desvendam novamente pra mim. 

Porque nesse momento eles estão conversando e guerreando. E Melquíades está apresentando a daguerreotipia à Macondo. E depois disso eles se reúnem, e cantam e choram, e as mulheres dão à luz uma sucessão de novos Buendías. E sofrem. E isto tudo está acontecendo agora. Neste exato momento.

Enquanto Sabina se olha no espelho com seu chapéu coco e Tereza sofre em pesadelos com Tomas.

E Baleia definha doente até a morte por tiro, a espera de um mundo cheinho de preás gordos e enormes.

E eu tantas vezes choro.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A BALARINA




Queria ser bonita de novo pra você.
Como quando a gente dançava juntos 
a vida toda.
Às vezes nus.
Às vezes bêbados.
Encantados.

Eu despida de fada,
em noites inteiras
em que via você me olhar.
Com olhos de um nunca abandono.

Eu queria ser muito branca, 
muito linda, 
muito despida.
Queria ser linda, amada, deitada.

Quando foi que seus olhos pararam de me olhar?

Como faço? 
Me explica.
Como fico bonita?

Se eu me pintar?
Colorida e alegre 
Você volta a se apaixonar?

E se eu me adornar de novo.
Você me ama?
como uma coisa pequena, pequenininha?
Singular.
Linda de se guardar.

E se eu dançar? 
E se eu cantar na madrugada?
E se eu ficar bêbada 
e a gente se amar?    
Você vai me encantar de novo?

Diz, como é que faço pra me enfeitar?
Me diz que cores usar.
Diz.
Diz.
Diz.

Diz onde eu fui parar.
Se não estou mais nas sextas-feiras onde aguardo você.
Nas noites sonoras e mágicas onde te encontrava
apaixonada.

Onde estou?

E se eu me pintar, você me vê?
Se eu arrumar os cabelos, se colocar vestido, colar.

E se eu sorrir?
Você vai me olhar?

Se você me levar a algum bar, me tirar pra dançar.
Você volta a me olhar?

Se eu pintar minha boca, minha vida.
Você vai me olhar?

E se me olhar e meus olhos ainda olharem você?
Você volta a se apaixonar?

E se eu te pedir
Você olha pra mim?
Você fica feliz?

DRUMMOND




O amor é bicho instruído
Olha, o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

C.D. de Andrade



[todo meu amor]

POEMINHA ROMÂNTICO



Apaixona-me o modo como te encaro
A ti e ao que é tão teu
Vejo o riso de tua angústia calada
E nele vejo também o meu

Guarda, amor, guarda estes versos

De tão singela e amadora poesia
Pois é cantando o momento de outrora
Que me desprende a incoerente alegria

Querendo, de tão belo, eternizá-lo

A imagem do ser tão amado
Diante da qual tantas vezes sorriu o meu
Recorro a meu querido amigo Machado[1]
“Como te não amaria eu?”

Porém, fixa bem em teus olhos

Estas minhas doces palavras
Porque te falo nesta hora 
E com tristeza em demasia
O homem que me possuiu um dia

Com tão grande contento e alegria
É o que vai te restar agora
Nesta tua vida de mim tão vazia



[1] Machado de Assis em carta à Carolina Novais

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


PARA MARCOS,
COM AMOR.

Depois de uma longa noite de bebedeira, só restamos eu e ele na mesa do bar. Desde o início encantada com a beleza daquela figura, eu pergunto:  - Vamos lá pra casa? A gente bebe umas mais e você dorme lá.

- Eu sou gay. Me disse sem muita comoção ou espanto.

- Não. Vou fazer de novo a pergunta - eu sorri - porque eu não te perguntei sobre sua definição de sexualidade, sua resposta não me serve. Vamos lá pra casa comigo? Ainda tenho algumas cervejas na geladeira, a gente bebe, conversa, e você dorme comigo, que tal?

Ele ficou meio atônito, mas depois riu e topou. E esteve na minha casa, ainda, com frequência e alegria, por uns 3 ou 4 meses mais. Até se apaixonar por um rapaz.

E eu, com o coração dolorido - saudade antecipada -, cheio de adeus e paixão sincera, abri a porta de casa pra ele, depois de nossa última conversa, e desejei que fosse muito feliz. Num beijo perturbado e quente, ele me abraçou muito e disse:

- Eu te amo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

SEXTA




"Sexta-feira"

noite perdida

dentro afora

de mim

álcool maconha e um cachorro quente na esquina.

Rilke Leminski na sua cama

eu na sua cama

rilke e leminski pelados

não falo

não falo

mordo sua língua e choro

você fala sem parar

mas é bonito

eu canso.

eu na sua cama

você dentro

você Rilke Lemisnki

dentro de mim.

noite noite noite

eu sou essa noite toda

escura

eu não vou embora

nunca mais vou embora

dessa noite.

domingo, 2 de setembro de 2012

SEM TÍTULO


paixões:

Eu nunca. Em nenhum momento achei pudesse saber o rumo que minha vida deveria tomar. Em nenhum momento fiz demais planos, desejei longínquos futuros, fiz de caminhos seguros.

Em nenhum momento hesitei presentes, reclamei passados, enxerguei à frente. Eu nunca quis ser, eu sempre fui. E ser já é uma força por demais doída (doida) à compreensão.

E ser já é suficientemente raro e dificil pra fazer desejar ainda saber o vir-a-ser. E justo de tanto ser, eu não sei calcular futuros.

Mas. Impelida a futuros sou, porque isso também é. E na cobrança dos que vivem no tempo, sobre ele sou frequentemente obrigada a dizer. Então digo, à exigência destas respostas: hoje serei. demasiadamente triste e incolor. apenas o esforço em tornar-me algo do que no futuro deverei ser.

Hoje estou sem vida e sem graça. Hoje estou. não estou. Nada. nada Assim é possível? vir-a-ser? E eu me esgoto, derramo, me dramo


MNEMOSINE (NÃO HÁ UM TÍTULO POSSÍVEL PARA ESSE TEXTO)



            Acordou. Como todas as manhãs eu a vira acordar: os cabelos dando-lhe a aparência monstruosa, o lado direito da cara amassado e marcado com as pequenas florzinhas da fronha. Como num decalque, todas as noites a florzinhas passavam da fronha ao rosto. Levantou-se e pela vigésima vez este ano, catou com um pé o chinelinho rosa que ela mesma chutava para debaixo da cama quando levantava na madrugada para fazer xixi. No banheiro olhou-se no espelho. Mas não fazia mesmo questão de se reconhecer. Lavou o rosto e, como em todas as manhãs, pensou se escovaria os dentes antes ou após o café. Ela parou o gesto, qualquer gesto, e pensou nisso. Então decidiu deixar para depois, assim como havia decidido ontem e todos os dias até aqui.
           
Será que poderia imaginar, dentro desta rotina de coisas pensadas, com o que de inesperado poderia lhe saudar a própria vontade? Talvez fosse melhor que não pensasse nisso. Não agora, porque ainda há o café a fazer, ainda tem de prepará-lo até começar sua história. A historia começaria verdadeiramente após o café.
           
Seguiu em passos molengos para a cozinha. Observou da janela a ainda madrugada despedindo-se tediosa lá fora. Separou sonâmbula os biscoitos, a manteiga, os talheres e pôs a água para ferver enquanto preparava o pó. Assoviou uma canção: ela estava despertando! De repente ocorreu-lhe um pensamento: onde estaria a pasta com as fotos de sua vida inteira? Sua vida inteira juntada numa pasta que ela não sabia mais onde estava. Sua vida inteira cabia ali. Depois do café, foi o que decidiu. Depois do café não, depois do café eu escovo os dentes, ecoou o rastro do primeiro pensamento. Minha vida inteira!, falou mansinha. E até então, não havia pronunciado palavra. E foi sentar-se calada junto dos biscoitos.

Abriu o armário do banheiro com muito mais rapidez do que presenciei faze-lo até aqui. Arrumou a pasta na escova com algum desleixo e espumou a boca. Parecia ansiosa. Bochechou apenas duas vezes ao invés das três que lhe era de costume e voltou ao quarto. Parou na porta e voltou a cozinha. Voltou ao quarto arrastando a cadeira com a qual pretendia ascender ao alcance das fotos da sua vida inteira. Então subiu na cadeira e abriu uma das portas de cima, a inatingível parte do guarda-roupa antigo. Gostaria que pudessem ver o que eu vi: um emaranhado de coisas, tão emaranhadas, tão emaranhadas, feito sentimentos confusos. Caixas, papéis, pastas. Bolsas e mais papéis, todos tão embolados que só o que se via era a ponta de um, o meio de outro, e outro, e outro, e outro, ora por cima, ora cortado, ora entremeado por aqueles outros. Sobrando entre toda aquela desordem, inteirinha, intacta, como se tivesse sido esquecida ali para ela, estava a pastinha azul de sua vida.

            Sentou-se na cama e abriu a pasta e  sua alegria era tão evidente, que as fotografias pareciam sorrir para ela. Despejou os retratos sobre o espaço entre as pernas e percebeu que não havia ali nenhuma ordem, estavam todos misturados: os da infância, da idade adulta e também de amigos e familiares. Era uma quantidade tão grande de gentes que ela lembrou de si, lembrou que até ali vivera 42 anos e pensou que aquela criança  que sorria numa foto por cima das outras não era ela. Reconhecia o vestidinho rosa, o irmão de mãos dadas e o olhar aprovador e feliz da mãe por detrás deles. Mas aquela criança não era ela. Ressentiu-se. Desejou lembrar de tudo. Mas de tudo mesmo e começou a revirar as fotos uma a uma, com certa raiva até. E viu novamente a menina do vestido rosa. Viu a menina em outros vestidos e encontrou semelhança entre ela e uma jovem que também aparecia ali entre outros jovens e depois num beijo-abraço com um namorado. E foi vendo. D repente, sentiu um chorinho leve chegando e reparou que ele chegava trazido pela memória: a menina do vestido rosa era ela! Ela sabia! Havia nelas duas e na jovem do beijo-abraço alguma coisa igual. E foi revirando as fotos, e foi ficando igual. E se deixou chorar um pouquinho. E quanto mais olhava, mais lembrava.

Correu e foi se olhar no espelho. Queria ter certeza que realmente poderia ser a menina das fotos. Levou junto a criança de rosa e a jovem do beijo. Na frente do espelho ajeitou os cabelos. As florzinhas da fronha não estavam mais decalcadas no rosto. Olhou-se e olhou as fotos, uma em cada mão. Sorriu. Era ela sim – mas bem poderiam ser outras pessoas –, pensou. Poderiam, mas não eram. E o que era aquilo então? O que é que via ali diante do espelho e nas mãos? O que a ligava àquelas pessoas, ora estranhas, ora parte dela? Sentiu-se confusa e achou que precisava lembrar-se de mais. Precisava lembrar de tudo. De tudo. Era necessário então, ordenar as fotos, calculou. Separá-las numa ordem cronológica vital, quem sabe assim ela seria capaz de entender? Quem sabe assim não houvesse mais dúvidas? E começou, foi separando: as da infância primeiro, logo depois viriam as da adolescência e depois as da idade adulta. Talvez enquanto fosse separando, pudesse ir recordando os detalhes, os pedacinhos de vida esquecidos.

Em que momento ela se recordaria do nexo entre ela e aquelas pessoas eternizadas? Onde estaria guardada essa coisa? Ela acreditou que ordenando as fotografias ela surgiria. Será que não percebia, ali sentada na cama, como agora a vejo, que também ela é uma fotografia? Mas ela estava procurando.

Assim, foi separando do monte maior, um outro montinho, aonde ia pacientemente despejando as fotos de criança. Foi revirando e encontrou um bebê.  Então decidiu que este seria o primeiro de todos os retratos: um bebê inchado. E a cara dele até poderia se parecer com aquela que não fizera questão de reconhecer quando acordara, de manhã cedo, ao se olhar no espelho. Ficou ali, cheia de uma ternura incontrolável, olhando aquele bebê enrolado numa manta cujo um nome escrito em letras bordadas martelava seus pensamentos: Matilda! Matilda! Ficou assim, consternada até que ouviu o choro do bebê. Um choro esganiçado. Sentiu um arrepio horroroso, um remexer nas entranhas. De repente percebeu que o choro do bebê vinha dela mesma, de seu próprio choro. Ela também estava chorando. Experimentou o frio, cólicas e tremores e se lembrou que há pouco desejara lembrar de tudo. Ficou quietinha, imóvel, olhando a foto do bebê de cara inchada. E chorava. É a memória que traz o choro, e, quando acontece, a gente fica igual, fica semelhante. Foi recordando, recordando, devagarzinho e sonolenta, recordou. Foi um assombro! Ela se lembrava! Lembrava daquele exato momento em que fora embrulhada na manta bordada Matilda. Seria possível? Sentiu um calor gostoso e ficou ali se esforçando pra ser aquilo.

 Estava mesmo muito assustada mas sentiu que já não podia deixar de lembrar. Contudo, o espanto maior ainda estava por vir: seria no meio dessa sensação deleitável, embrulhada na manta-Matilda que lhe viria a revelação. No instante seguinte, ainda embalada pela comoção acolhedora, começou a sentir-se fraca. Foi sentindo-se tão fraca e pequena, foi diminuindo, diminuindo até que, de repente, sua existência diminuta começava a ser tomada por uma vertigem desnorteante. Foi enfim invadida, ao mesmo tempo por uma sensação de fim de mundo, uma falta de coisas concretas e uma dorzinha miúda pelo corpo. – Assim deve ser nascer! – balbuciou assustada e sem muita consciência. E com a vontade descontrolada continuou se lembrando. Estava recordando o próprio nascimento e isso lhe parecia uma coisa sem nenhum sentido. E ela ia recordando, e se encolhendo e aos poucos, a dorzinha miúda ia se transformando numa coisa, numa vontade de sei lá o que, e a cabeça, pouco pensada, era só uma curiosa inexistência. E o corpo? o corpinho era tão molinho, tão molinho, que parecia não poder fazer mesmo outra coisa senão ser cuspido do ventre quente onde se encontrava. Até que chorou. Explodiu em pranto. Chorou muito, muito mesmo. E as lágrimas iam se misturando às águas do parto.

Foi então se acalmando, silenciando soluços, e pondo em ordem os sentimentos. Estava apavorada. Nunca presenciara tamanho encantamento. Não conseguia pensar, não conseguia nem mesmo saber a que ordem de coisas aquilo pertencia. Havia somente uma pergunta desordenada e flutuante no meio de tanta excitação: o que lhe aconteceria agora? Sentiu um cansaço enorme. Nascer era um esforço doloroso. Queria dormir um pouco. Afastou com cuidado os dois montinhos de retratos e deitou-se ao lado deles. Aos poucos foi pegando no sono. Ela ia dormir mas não faria muita questão de lembrar dos sonhos que tivesse agora. Sua história havia realmente começado.



SOBRE O AMOR



Então eu disse: não, não vá!
Não me dê ordens!, ele respondeu.
Então, ok. Vá onde quiser, meu caro, porque eu sempre fui onde quis. Só não venha me dizer depois o que eu preciso fazer por você. Eu disse isso cheia de fé e orgulho, mas ele já tinha ido.

E me perguntei por mais de uma noite e ainda durante muito tempo: que tipo de relação devo estabelecer com um homem? Se não me causa angústia tê-lo desse jeito, haveria mesmo algum problema nisso? Sim, eu tenho meus conflitos. Nem sei se é esse... não chega a me causar dor. Por algum motivo eu rio deles. Ainda que este eu não consiga resolver. Este em que me coloquei agora.

Custo a pagar no sono. Amo o amor. Este mesmo que acredito que inventei. Inventei? O que me faz acreditar que amo alguém senão eu mesma? Senão essa crença na possibilidade que se torna essa própria invenção? Quem sou eu e quem é o outro? Este que me deveria ser completamente estranho, mas que amei? Quem é? O que se tornou agora? Por que, ainda depois de tudo, gostaria de amá-lo? "Esse romantismo classe média é que é bonito na gente", você me disse um dia.

Será que um dia vou deixar de amá-lo no que ele foi? Será que irei transformá-lo numa coisa qualquer que não me desperte nem um amor e então ele deixará de ser, de um jeito que se torne impossível amar, ou desnecessário, ou apenas inexistente? E isso é possível? É viável? É assim?

Vou transformá-lo em outra coisa. É impossível eternizar qualquer coisa... é simplesmente impossível, o eterno! Apenas a memória é coerente.

Mas eu o amei. Da forma como se pode amar a um homem desse tipo. Desde que o conheci ele sabia que seria assim. Tinha de ser assim. "Eu cuido de você" foi o que ouvi. E, na verdade, toda vez que me deitava com ele era isso que esperava. Poucas vezes desejei outra coisa. Nós quisemos assim. Naquela noite, exatamente naquela noite, quando te vi, eu quis que você fosse isto. Esse encanto em que me coloquei, isso tudo, começou ali. Antes disso eu não sabia de nada. Muito pouco me havia sido oferecido.

É estranho lembrar de sua beleza naquela noite. O que foi que eu vi? Eu vi a paixão. Ela própria inflamada. Naquela pessoa dolorosa.

Não sei se chega a ser uma dor essa ausência. Eu amo o amor. E me amo quando estou nele.

E agora isso.

Ele me perguntou se não me apaixonaria de novo. Eu também já havia me perguntado. Ofereci-lhe o beijo à boca com o entusiasmo e a eloquência abafada daqueles que fogem da resposta.


SE EU ME CHAMASSE RAIMUNDO





E ele subiu, subiu, subiu. Subiu até lá em cima donde as nuvens vêm alisar os cabelos. E lá em cima, ele tirou do bolso todo o dinheiro e tudo que ele podia comprar (sentiu vontade de ficar leve, bem leve) e ficou lá, pasmado, feito coisa que via assombração. Assombração que nada: ele viu foi a circunferência do mundo! Ficou lá parado, com o coração em desatino, em explosão. Olhou, olhou, olhou tudo bem olhado. Olhou a curvinha da terra lá longe, no horizonte, e sentiu uma vontade muito grande de contar pra alguém que era verdade, que o mundo era bem redondo mesmo.



QUALQUER LUGAR





Encostou a cabeça no vidro da janela e achou que fosse cochilar. Pensava sobre o período que antecede a transformação. O coração, ouvira dizer que estava partido. Sentiu uma saudade morna que aqueceu-lhe a ponta dos dedos. Como as coisas podem acabar? - suspirou baixando os olhos nas próprias pernas. Deve ser a ventania - e olhou lá fora o lixo revirado e a chuva fina que chega antes do temporal.

Velozes e coloridas fitas de luz riscavam-lhe a visão enquanto observava tranquila a correria do casario que passava pela janela. Não vou dormir - pensou. Já sabia bem que a época dos romances estava acabando, mas sentia ainda a dor fininha e miúda que acomete os apaixonados. E ela parecia circular, vermelha e latente, muitas vezes sem que nem mesmo percebesse que era parte sua.

Mexeu-se no banco e resolveu ficar inquieta. Todos os dias, há quatro anos fazia este mesmo caminho. Como poderia haver coisas que ainda não conhecia? Elas estavam lá e sabia que por mais que olhasse não iria percebe-las. Talvez não ainda. É estranho como as coisas incomodam: durante todo tempo, sentiu essa saudade vazia que não podia explicar. Uma saudade inviolada que chegava junto com ele. E toda vez que ele vinha tocá-la.

Foi escorregando o corpo pelo assento e colocou os joelhos nas costas do banco da frente. Ficou ali encolhida, quase escondida, como quem aguarda alguma pequena surpresa. Olhou de esguelha o aguaceiro feroz que caía lá fora. Dentro do ônibus ela estava protegida, apesar de ter tanta certeza que tempestades como esta costumam trazer e levar tantas coisas que ela não saberia nem bem se podia gostar ou não delas. É porque as coisas nunca ficam iguais depois de um temporal - pensou bem pequeno e baixinho dentro do seu esconderijo. E antes de cochilar foi invadida por um tremendo medo-amor das tempestades.


SEM TÍTULO





Parece que preciso decidir alguma coisa, e urgente. Sempre carreguei essa sensação. Esta noite acordei com medo de morrer. Tive vontade de mudar de casa, de não sair mais de dentro dela, de chorar. Tive medo até do escuro, da luz apagada, exatamente como uma memória infantil. Logo eu que, na duvidosa empáfia de minha autodescrição, me configuro na incredulidade dos espectros que assombram os homens. Mas não tinha explicação, aquele medo. Era medo só. E não havia transcendência nenhuma ali (apesar de sentir às vezes o pânico quase querência dos descrentes em se deparar com ela), só meus fantasmas, estes mesmos que me constituem.

Não era pra eu estar aqui. É essa a impressão. E onde então? Isso acompanha a urgência da decisão. Mas onde então? Não sei... a angústia pelo medo da morte fizeram incisivas a amofinação e a urgência. E me lembrei do começo. De um dos vários começos da vida. A lembrança sempre transforma o acontecimento num limite. Mas não foi precisamente do medo infantil que me lembrei, nem da sensação de espanto e sofrimento. Foi de mim mesma, de quando comecei a duvidar.

duvidar que existe Deus.
duvidar que existe um destino.
a sensação do que poderia não ser. 

O horror mesmo da morte como não existência.


CENTRO DA CIDADE




Estava bastante calor e não corria nenhum ventinho. Ela sentia um tremendo nervoso da blusa de viscose colada no suor das costas e daquele bafo infernal que subia do chão. Os cabelos mal arrumados, num improviso de rabo de cavalo torto e despenteado, davam a exata impressão da aflição que ela sentia. Cruzou a pista e parou na próxima calçada. Olhou a luz vermelha do sinal de trânsito. Piscou pra ela e no tempo de abrir os olhos ela já havia se tornado aquele verde irritante. Atravessou apressada na obrigação de acompanhar o ritmo da cidade.

Seguiu pela rua larga e sem muito drama mantinha a cabeça baixa e os olhos fitando o chão. Ia vendo os sapatos, tênis brancos, scarpins pretos cor de rosas e caramelos, sandálias de todo tipo e os sapatinhos miúdos de crianças em passinhos ligeiro apertados. Ora via a ponta dos próprios pés: as unhas curtinhas e limpas e os dedos em escadinha dentro da sandália alta de tiras pretas. Os pés que queria, nunca teriam aqueles joanetes velhos que carregava desde os tempos de menina bailarina. Tentou apagar os joanetes enchendo o peito de ar e erguendo a cabeça pra frente mas sentiu como se o calinho estivesse num latejar constante: não havia jeito de negar o que era.

Parou bem de frente à porta de um daqueles prédios enormes que desviam os ventos pra outros lugares. O reflexo da mulher de saia preta e blusa branca de botões parou também. Ficou um tempo parada, olhando o espelho da porta de vidro e pensando no que tinha que fazer ali. Por um momento achou que pudesse esquecer. Foi se aproximando da mulher reflexo até tocá-la. Com a ponta dos dedos fez leve pressão no encontro com os dedos da outra e então a porta se abriu. O hall do prédio engoliu-a rápido e ela se sentiu melhor porque lá dentro estava gelado e vazio: só um porteiro cochilando sentado e os três elevadores antigos. Com um barulho qualquer fez despertar o porteiro num sorriso amarelo. Devolveu um sorriso afável e reconfortante e aguardou que ele terminasse no interfone e lhe desse a autorização: "sala 9001", ela antecipou.

- Pode subir. Ele está esperando. Sala 9001.

- Obrigada. Resignou-se a responder tão baixo para não saber mesmo se ele poderia ter escutado. "Será que escutou? Sala 9001", pensou de novo.

Caminhou mais um pouco e outra vez deu de cara com a mulher de saia preta e blusa branca no filete de espelho que havia na parede entre as portas dos elevadores. O espelho era fino e a mulher estava cortada ao meio. Ela não era bonita. Definitivamente não era. Mas havia nela qualquer coisa de que se agradava. Talvez o ar de menina frágil e a aparência desesperada. E isso também agradava aos homens: o porteiro não lhe tirava os olhos. Entrou no elevador, apertou o comando e enquanto olhava a porta restringi-la de vez naquela caixa medonha - tinha pavor de elevadores - , soltou os cabelos e ajeitou-os num novo rabo de cavalo. Preocupou-se desta vez que este não ficasse torto. Baixou a cabeça e viu novamente os joanetes. Encolheu os dedos num movimento quase involuntário e enquanto o elevador subia lembrou-se dos tempos de bailarina: ele a deixara com pernas firmes.

- Olá! Boa tarde! Como vai? Ouviu a voz vindo de trás.

Virou-se e, no momento em que ia tocar a campainha, viu, numa proximidade suficientemente incomoda, o feliz homem educado:

- Fui ali...

- Hum-rum. Consentiu com a cabeça liberando-o da explicação.

- Vamos entrando. E ela o seguiu. Você está bonita hoje.

Observou o escritório, já estivera ali inúmeras vezes mas ele nunca lhe parecia familiar. Colocou a bolsa em cima de uma cadeira, sentou-se sobre a mesa e permaneceu observando o homem se movimentar à vontade.

- O que vai querer? Ela esforçou-se em demonstrar confiança. "Era essa a pergunta que faziam?" Pensou .

- Quer beber alguma coisa?

- Não obrigada. O que vai querer? E gostou de perguntar isso mais uma vez.

- Vou beber alguma coisa, importa-se?

Ela fez que não com a cabeça e sorriu. Ela sabia bem o que ele queria.

- O que vou querer? Ele riu. Foi tirando a carteira do bolso. Tratamos disso agora?

- É melhor... Conforme o combinado. E já começava a se sentir muito segura e bonita também.

Ele foi se aproximando, entregou-lhe o dinheiro e se ajoelhou. Ela observava os movimentos tranqüilos do homem, e eles foram lhe revelando que todas as impressões que formulasse sobre aquilo que estava acontecendo estariam envolvidas num mistério tão grande que não poderiam jamais correr o risco de nenhum tipo de explicação. Via-se de novo, agora sobreposta à paisagem cinzenta fixada no vidro da janela de frente pra mesa. E via-se numa beleza extraordinária. Continuou olhando atenta o que ele fazia: o homem vagarosa e gentilmente desabotoava suas sandálias. E neste momento ela se amava muito, e num sentimento de poder muito incrível, como se o ar que lhe entrava pelo corpo estivesse cheio de um doce amornado e inexplicável que preenchiam os pensamentos d'umas futilidades muito felizes e deliciosas. Depois de tirar as sandálias, deu-lhe um beijo em cada pé e ergueu-se. Ela percebeu que ele passou muito de raspão o olhar na abertura que a saia deixava entre suas pernas. Então se achou mais bonita ainda. O homem beijou sua boca de leve, como se obedecesse a um ritual, e desabotoou a blusa que ela num movimento lindíssimo de tão delicado terminou de tirar. Ele passou os braços pelas suas costas procurando fecho, enquanto que, prevendo que queria se livrar da parte de baixo da roupa, ela saltou da mesa deixando cair a saia sobre os pés descalços. Já não se incomodava com os joanetes. As pernas eram extremamente bonitas agora. Serviu-o como sempre achou que devem fazer as putas e quando terminou de fazer o serviço ouviu o homem pedir-lhe o que já esperava:

- Agora dança pra mim Cláudia. Dança?

Encheu-se de uma vulgaridade confiante, vestiu suas roupas bem rapidamente, passou a mão no dinheiro que havia ficado em cima da mesa, fez questão de conferir e, olhando bem nos olhos daquele homem a quem se dedicara em amor por tanto tempo, e como se pudesse punir-lhe por toda mágoa que ele causara cuspiu-lhe na cara um desdém inventado:

- Não sou paga pra dançar. Sorriu cínica e iluminada.

Abriu a porta, deixou pra trás o sujeito com cara de bobo e seguiu se amando. Foi levando junto de si um rastro invisível de joanetes, bailarinas, pernas, mulheres e amores mal resolvidos.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

NA ORDEM DO DIA



Gargalhava de.

braços abertos, pouco afastados. Do corpo, as mãos espalmadas pra cima, os olhos bem abertos, olhando. Pra si, pra dentro de si, ria alto. Em meio ao lixo, às carroças e seus catadores, ao pequeno trânsito de bicicletas na calçada. Alheia aos transeuntes e às pessoas paradas que esperavam, como ela, automáticas, seus ônibus naquele ponto, ria.  Louca e incompreendida da própria condição, enquanto o sangue, muito sangue, escorria pelas pernas. Depois de já ter lambuzado quase toda a saia e as mãos, as que tentaram contê-lo, parou de rir meio zonza. Com a cabeça meio torta. Como os olhares que a estranhavam, recolheu e guardou no coração toda a culpa.

Suspirou?

sentiu os olhares de escárnio perfurarem sua sobriedade. Atravessaram-na, acachapando a possibilidade de que ela fosse de seu coração pra fora. Então, ela também se guardou em si, sem nenhum pudor ou vergonha, apenas com cuidado.

E moveu-se

sangrando um rastro que ninguém ousaria, e enquanto seus ocasionais inquisidores seguem – de manhã, cedo, pras suas obrigações – ela partia. Embora audaz, num ritmo muito mais lento e outro que o tempo das interrogações despertas que morreriam rumo às contingências do dia.

O CÃO






Ele estava ali sentado, corpo ereto, orelhas espertas, cauda em riste, olhar atento ao longe desde o horizonte, ali, estático, quieto, sentinela na entrada do prédio. Já estava ali há tempos, e pretendia ficar ainda mais, por quanto fosse necessário. Sim, convicto. Ele ficaria.

Ele não sabia exatamente o que tinha acontecido, nem de rumores. ficou confuso com o movimento, mais cedo. gente andando pra lá e pra cá, gente que nunca tinha visto. um movimento. desorientado, aturdido. não compreendeu palavras. Vou latir. vou pra lá e pra cá. corro. não importava, mas sentiu o cheiro estranho e pôs-se em alerta. depois. ali. parado. ficou.

Ele sabia que a universidade e aquelas pessoas precisavam dele.



MABELLE & LUIZA







A miserável não tinha nome. Acordei.

Não tinha nome, nem telefone, nem uma cara, um rosto, a miserável tinha. Porque eu estava bêbada, completamente bêbada. Mas a miserável saiu de manhã cedo, antes d'eu acordar, largou todo seu cheiro na minha roupa de cama. Porra, que dor de cabeça, caramba.

Também fez o café da manhã e preparou a mesa. Num bilhete de guardanapo, com lápis de olho, me escreveu meia dúzia de delicadezas, amei tudo nos esbarramos e uma poesia do Rilke

um beijo,

Luiza.

Tudo o quê meu deus? Não lembro.

A miserável deixou o bilhete em cima da mesa da cozinha, sob o peso da orquídea arrancada na sala que há um ano eu esperava florir. E eu não pude não me apaixonar pra sempre por Luiza naquele dia.




O GATO




Uma dor tão intensa.

Não. não deu tempo. se encerrou.

Nada.

E toda ternura deu lugar a nada.






Antes.

sorrateiro, agachadinho, gorducho e peludo, surgiu veloz por debaixo do carro.  Ainda parou no meio-fio da calçada, deu uns três miados e.

Nunca saberemos por que atravessou.

De repente

Zás.

o monstro atropelou-lhe os quartos e deitou-lhe e.

então.

Pof!

o que vinha logo atrás esmagou a cabecinha ainda erguida que balançava zonza sobre o corpo no chão.



EU, PASSARINHO




Fechou os olhinhos miúdos de passarinho, sentiu o solzinho morno esquentar o flanco, eriçou a plumagem um pouco pra sentir o calor entrar nas penas até a pele, meneou, meneou, manejou o vôo, se deixando cair um pouco.

Sentiu o vento manso coçar carinhoso sua barriga, fechou de novo os olhos e achou que era gostoso e que era feliz e no seu piado interior de bicho saturado do cotidiano concreto da cidade pensou

como é bom voar por sobre os prédios.
(e ir parando nos beirais)



10 CONTOS SOBRE O ALTO-MAR






Navio

Como deve ser a noite em um navio?


***



Conto II

Depois de seis meses pagando as prestações, enfim Mabelle ia por seus pés naquele Cruzeiro.



***

O mergulhador e a arraia

Surgiu fugidia e arisca a arraia assustada entre as pedras ao sentir o mergulhador.


***


Conto

Era seu primeiro dia na plataforma de petróleo.



***


Conto V

Olhou da janela o horizonte, viu a embarcação luminosa e imaginou.



***


Conto de amor

Descamou o peixe com respeito e afeto, aquela consideração metafísica que se tem pelas coisas que vêm de longe.



***


Alto-mar (último conto)

Em sonho, navegava.