Encostou a cabeça no vidro da
janela e achou que fosse cochilar. Pensava sobre o período que antecede a
transformação. O coração, ouvira dizer que estava partido. Sentiu uma saudade
morna que aqueceu-lhe a ponta dos dedos. Como as coisas podem acabar? -
suspirou baixando os olhos nas próprias pernas. Deve ser a ventania - e olhou
lá fora o lixo revirado e a chuva fina que chega antes do temporal.
Velozes e coloridas fitas de luz
riscavam-lhe a visão enquanto observava tranquila a correria do casario que
passava pela janela. Não vou dormir - pensou. Já sabia bem que a época dos
romances estava acabando, mas sentia ainda a dor fininha e miúda que acomete os
apaixonados. E ela parecia circular, vermelha e latente, muitas vezes sem que
nem mesmo percebesse que era parte sua.
Mexeu-se no banco e resolveu
ficar inquieta. Todos os dias, há quatro anos fazia este mesmo caminho. Como
poderia haver coisas que ainda não conhecia? Elas estavam lá e sabia que por
mais que olhasse não iria percebe-las. Talvez não ainda. É estranho como as
coisas incomodam: durante todo tempo, sentiu essa saudade vazia que não podia
explicar. Uma saudade inviolada que chegava junto com ele. E toda vez que ele
vinha tocá-la.
Foi escorregando o corpo pelo
assento e colocou os joelhos nas costas do banco da frente. Ficou ali
encolhida, quase escondida, como quem aguarda alguma pequena surpresa. Olhou de
esguelha o aguaceiro feroz que caía lá fora. Dentro do ônibus ela estava
protegida, apesar de ter tanta certeza que tempestades como esta costumam
trazer e levar tantas coisas que ela não saberia nem bem se podia gostar ou não
delas. É porque as coisas nunca ficam iguais depois de um temporal - pensou bem
pequeno e baixinho dentro do seu esconderijo. E antes de cochilar foi invadida
por um tremendo medo-amor das tempestades.

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