domingo, 2 de setembro de 2012

QUALQUER LUGAR





Encostou a cabeça no vidro da janela e achou que fosse cochilar. Pensava sobre o período que antecede a transformação. O coração, ouvira dizer que estava partido. Sentiu uma saudade morna que aqueceu-lhe a ponta dos dedos. Como as coisas podem acabar? - suspirou baixando os olhos nas próprias pernas. Deve ser a ventania - e olhou lá fora o lixo revirado e a chuva fina que chega antes do temporal.

Velozes e coloridas fitas de luz riscavam-lhe a visão enquanto observava tranquila a correria do casario que passava pela janela. Não vou dormir - pensou. Já sabia bem que a época dos romances estava acabando, mas sentia ainda a dor fininha e miúda que acomete os apaixonados. E ela parecia circular, vermelha e latente, muitas vezes sem que nem mesmo percebesse que era parte sua.

Mexeu-se no banco e resolveu ficar inquieta. Todos os dias, há quatro anos fazia este mesmo caminho. Como poderia haver coisas que ainda não conhecia? Elas estavam lá e sabia que por mais que olhasse não iria percebe-las. Talvez não ainda. É estranho como as coisas incomodam: durante todo tempo, sentiu essa saudade vazia que não podia explicar. Uma saudade inviolada que chegava junto com ele. E toda vez que ele vinha tocá-la.

Foi escorregando o corpo pelo assento e colocou os joelhos nas costas do banco da frente. Ficou ali encolhida, quase escondida, como quem aguarda alguma pequena surpresa. Olhou de esguelha o aguaceiro feroz que caía lá fora. Dentro do ônibus ela estava protegida, apesar de ter tanta certeza que tempestades como esta costumam trazer e levar tantas coisas que ela não saberia nem bem se podia gostar ou não delas. É porque as coisas nunca ficam iguais depois de um temporal - pensou bem pequeno e baixinho dentro do seu esconderijo. E antes de cochilar foi invadida por um tremendo medo-amor das tempestades.


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