Acordou.
Como todas as manhãs eu a vira acordar: os cabelos dando-lhe a aparência
monstruosa, o lado direito da cara amassado e marcado com as pequenas
florzinhas da fronha. Como num decalque, todas as noites a florzinhas passavam
da fronha ao rosto. Levantou-se e pela vigésima vez este ano, catou com um pé o
chinelinho rosa que ela mesma chutava para debaixo da cama quando levantava na
madrugada para fazer xixi. No banheiro olhou-se no espelho. Mas não fazia mesmo
questão de se reconhecer. Lavou o rosto e, como em todas as manhãs, pensou se
escovaria os dentes antes ou após o café. Ela parou o gesto, qualquer gesto, e
pensou nisso. Então decidiu deixar para depois, assim como havia decidido ontem
e todos os dias até aqui.
Será que
poderia imaginar, dentro desta rotina de coisas pensadas, com o que de
inesperado poderia lhe saudar a própria vontade? Talvez fosse melhor que não
pensasse nisso. Não agora, porque ainda há o café a fazer, ainda tem de
prepará-lo até começar sua história. A historia começaria verdadeiramente após
o café.
Seguiu em
passos molengos para a cozinha. Observou da janela a ainda madrugada
despedindo-se tediosa lá fora. Separou sonâmbula os biscoitos, a manteiga, os
talheres e pôs a água para ferver enquanto preparava o pó. Assoviou uma canção:
ela estava despertando! De repente ocorreu-lhe um pensamento: onde estaria a
pasta com as fotos de sua vida inteira? Sua vida inteira juntada numa pasta que
ela não sabia mais onde estava. Sua vida inteira cabia ali. Depois do café, foi o que decidiu. Depois do café não, depois do café eu escovo os
dentes, ecoou o rastro do primeiro
pensamento. Minha vida inteira!, falou mansinha. E até então, não havia
pronunciado palavra. E foi sentar-se calada junto dos biscoitos.
Abriu o armário
do banheiro com muito mais rapidez do que presenciei faze-lo até aqui. Arrumou
a pasta na escova com algum desleixo e espumou a boca. Parecia ansiosa.
Bochechou apenas duas vezes ao invés das três que lhe era de costume e voltou
ao quarto. Parou na porta e voltou a cozinha. Voltou ao quarto arrastando a
cadeira com a qual pretendia ascender ao alcance das fotos da sua vida inteira.
Então subiu na cadeira e abriu uma das portas de cima, a inatingível parte do
guarda-roupa antigo. Gostaria que pudessem ver o que eu vi: um emaranhado de
coisas, tão emaranhadas, tão emaranhadas, feito sentimentos confusos. Caixas,
papéis, pastas. Bolsas e mais papéis, todos tão embolados que só o que se via
era a ponta de um, o meio de outro, e outro, e outro, e outro, ora por cima,
ora cortado, ora entremeado por aqueles outros. Sobrando entre toda aquela
desordem, inteirinha, intacta, como se tivesse sido esquecida ali para ela,
estava a pastinha azul de sua vida.
Sentou-se
na cama e abriu a pasta e sua alegria
era tão evidente, que as fotografias pareciam sorrir para ela. Despejou os
retratos sobre o espaço entre as pernas e percebeu que não havia ali nenhuma
ordem, estavam todos misturados: os da infância, da idade adulta e também de
amigos e familiares. Era uma quantidade tão grande de gentes que ela lembrou de
si, lembrou que até ali vivera 42 anos e pensou que aquela criança que sorria numa foto por cima das outras não
era ela. Reconhecia o vestidinho rosa, o irmão de mãos dadas e o olhar
aprovador e feliz da mãe por detrás deles. Mas aquela criança não era ela.
Ressentiu-se. Desejou lembrar de tudo. Mas de tudo mesmo e começou a revirar as
fotos uma a uma, com certa raiva até. E viu novamente a menina do vestido rosa.
Viu a menina em outros vestidos e encontrou semelhança entre ela e uma jovem
que também aparecia ali entre outros jovens e depois num beijo-abraço com um
namorado. E foi vendo. D repente, sentiu um chorinho leve chegando e reparou
que ele chegava trazido pela memória: a menina do vestido rosa era ela! Ela
sabia! Havia nelas duas e na jovem do beijo-abraço alguma coisa igual. E foi
revirando as fotos, e foi ficando igual. E se deixou chorar um pouquinho. E
quanto mais olhava, mais lembrava.
Correu e foi
se olhar no espelho. Queria ter certeza que realmente poderia ser a menina das
fotos. Levou junto a criança de rosa e a jovem do beijo. Na frente do espelho
ajeitou os cabelos. As florzinhas da fronha não estavam mais decalcadas no
rosto. Olhou-se e olhou as fotos, uma em cada mão. Sorriu. Era ela sim – mas
bem poderiam ser outras pessoas –, pensou. Poderiam, mas não eram. E o que era
aquilo então? O que é que via ali diante do espelho e nas mãos? O que a ligava
àquelas pessoas, ora estranhas, ora parte dela? Sentiu-se confusa e achou que
precisava lembrar-se de mais. Precisava lembrar de tudo. De tudo. Era
necessário então, ordenar as fotos, calculou. Separá-las numa ordem cronológica
vital, quem sabe assim ela seria capaz de entender? Quem sabe assim não
houvesse mais dúvidas? E começou, foi separando: as da infância primeiro, logo
depois viriam as da adolescência e depois as da idade adulta. Talvez enquanto
fosse separando, pudesse ir recordando os detalhes, os pedacinhos de vida
esquecidos.
Em que momento
ela se recordaria do nexo entre ela e aquelas pessoas eternizadas? Onde estaria
guardada essa coisa? Ela acreditou que ordenando as fotografias ela surgiria.
Será que não percebia, ali sentada na cama, como agora a vejo, que também ela é
uma fotografia? Mas ela estava procurando.
Assim, foi
separando do monte maior, um outro montinho, aonde ia pacientemente despejando
as fotos de criança. Foi revirando e encontrou um bebê. Então decidiu que este seria o primeiro de
todos os retratos: um bebê inchado. E a cara dele até poderia se parecer com
aquela que não fizera questão de reconhecer quando acordara, de manhã cedo, ao
se olhar no espelho. Ficou ali, cheia de uma ternura incontrolável, olhando
aquele bebê enrolado numa manta cujo um nome escrito em letras bordadas
martelava seus pensamentos: Matilda! Matilda! Ficou assim, consternada até que
ouviu o choro do bebê. Um choro esganiçado. Sentiu um arrepio horroroso, um
remexer nas entranhas. De repente percebeu que o choro do bebê vinha dela
mesma, de seu próprio choro. Ela também estava chorando. Experimentou o frio,
cólicas e tremores e se lembrou que há pouco desejara lembrar de tudo. Ficou
quietinha, imóvel, olhando a foto do bebê de cara inchada. E chorava. É a
memória que traz o choro, e, quando acontece, a gente fica igual, fica
semelhante. Foi recordando, recordando, devagarzinho e sonolenta, recordou. Foi
um assombro! Ela se lembrava! Lembrava daquele exato momento em que fora
embrulhada na manta bordada Matilda. Seria possível? Sentiu um calor gostoso e
ficou ali se esforçando pra ser aquilo.
Estava mesmo muito assustada mas sentiu que já
não podia deixar de lembrar. Contudo, o espanto maior ainda estava por vir:
seria no meio dessa sensação deleitável, embrulhada na manta-Matilda que lhe
viria a revelação. No instante seguinte, ainda embalada pela comoção
acolhedora, começou a sentir-se fraca. Foi sentindo-se tão fraca e pequena, foi
diminuindo, diminuindo até que, de repente, sua existência diminuta começava a
ser tomada por uma vertigem desnorteante. Foi enfim invadida, ao mesmo tempo
por uma sensação de fim de mundo, uma falta de coisas concretas e uma dorzinha
miúda pelo corpo. – Assim deve ser nascer! – balbuciou assustada e sem muita
consciência. E com a vontade descontrolada continuou se lembrando. Estava
recordando o próprio nascimento e isso lhe parecia uma coisa sem nenhum
sentido. E ela ia recordando, e se encolhendo e aos poucos, a dorzinha miúda ia
se transformando numa coisa, numa vontade de sei lá o que, e a cabeça, pouco
pensada, era só uma curiosa inexistência. E o corpo? o corpinho era tão
molinho, tão molinho, que parecia não poder fazer mesmo outra coisa senão ser
cuspido do ventre quente onde se encontrava. Até que chorou. Explodiu em
pranto. Chorou muito, muito mesmo. E as lágrimas iam se misturando às águas do
parto.
Foi então se
acalmando, silenciando soluços, e pondo em ordem os sentimentos. Estava
apavorada. Nunca presenciara tamanho encantamento. Não conseguia pensar, não
conseguia nem mesmo saber a que ordem de coisas aquilo pertencia. Havia somente
uma pergunta desordenada e flutuante no meio de tanta excitação: o que lhe
aconteceria agora? Sentiu um cansaço enorme. Nascer era um esforço doloroso.
Queria dormir um pouco. Afastou com cuidado os dois montinhos de retratos e
deitou-se ao lado deles. Aos poucos foi pegando no sono. Ela ia dormir mas não
faria muita questão de lembrar dos sonhos que tivesse agora. Sua história havia
realmente começado.
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