domingo, 2 de setembro de 2012

MNEMOSINE (NÃO HÁ UM TÍTULO POSSÍVEL PARA ESSE TEXTO)



            Acordou. Como todas as manhãs eu a vira acordar: os cabelos dando-lhe a aparência monstruosa, o lado direito da cara amassado e marcado com as pequenas florzinhas da fronha. Como num decalque, todas as noites a florzinhas passavam da fronha ao rosto. Levantou-se e pela vigésima vez este ano, catou com um pé o chinelinho rosa que ela mesma chutava para debaixo da cama quando levantava na madrugada para fazer xixi. No banheiro olhou-se no espelho. Mas não fazia mesmo questão de se reconhecer. Lavou o rosto e, como em todas as manhãs, pensou se escovaria os dentes antes ou após o café. Ela parou o gesto, qualquer gesto, e pensou nisso. Então decidiu deixar para depois, assim como havia decidido ontem e todos os dias até aqui.
           
Será que poderia imaginar, dentro desta rotina de coisas pensadas, com o que de inesperado poderia lhe saudar a própria vontade? Talvez fosse melhor que não pensasse nisso. Não agora, porque ainda há o café a fazer, ainda tem de prepará-lo até começar sua história. A historia começaria verdadeiramente após o café.
           
Seguiu em passos molengos para a cozinha. Observou da janela a ainda madrugada despedindo-se tediosa lá fora. Separou sonâmbula os biscoitos, a manteiga, os talheres e pôs a água para ferver enquanto preparava o pó. Assoviou uma canção: ela estava despertando! De repente ocorreu-lhe um pensamento: onde estaria a pasta com as fotos de sua vida inteira? Sua vida inteira juntada numa pasta que ela não sabia mais onde estava. Sua vida inteira cabia ali. Depois do café, foi o que decidiu. Depois do café não, depois do café eu escovo os dentes, ecoou o rastro do primeiro pensamento. Minha vida inteira!, falou mansinha. E até então, não havia pronunciado palavra. E foi sentar-se calada junto dos biscoitos.

Abriu o armário do banheiro com muito mais rapidez do que presenciei faze-lo até aqui. Arrumou a pasta na escova com algum desleixo e espumou a boca. Parecia ansiosa. Bochechou apenas duas vezes ao invés das três que lhe era de costume e voltou ao quarto. Parou na porta e voltou a cozinha. Voltou ao quarto arrastando a cadeira com a qual pretendia ascender ao alcance das fotos da sua vida inteira. Então subiu na cadeira e abriu uma das portas de cima, a inatingível parte do guarda-roupa antigo. Gostaria que pudessem ver o que eu vi: um emaranhado de coisas, tão emaranhadas, tão emaranhadas, feito sentimentos confusos. Caixas, papéis, pastas. Bolsas e mais papéis, todos tão embolados que só o que se via era a ponta de um, o meio de outro, e outro, e outro, e outro, ora por cima, ora cortado, ora entremeado por aqueles outros. Sobrando entre toda aquela desordem, inteirinha, intacta, como se tivesse sido esquecida ali para ela, estava a pastinha azul de sua vida.

            Sentou-se na cama e abriu a pasta e  sua alegria era tão evidente, que as fotografias pareciam sorrir para ela. Despejou os retratos sobre o espaço entre as pernas e percebeu que não havia ali nenhuma ordem, estavam todos misturados: os da infância, da idade adulta e também de amigos e familiares. Era uma quantidade tão grande de gentes que ela lembrou de si, lembrou que até ali vivera 42 anos e pensou que aquela criança  que sorria numa foto por cima das outras não era ela. Reconhecia o vestidinho rosa, o irmão de mãos dadas e o olhar aprovador e feliz da mãe por detrás deles. Mas aquela criança não era ela. Ressentiu-se. Desejou lembrar de tudo. Mas de tudo mesmo e começou a revirar as fotos uma a uma, com certa raiva até. E viu novamente a menina do vestido rosa. Viu a menina em outros vestidos e encontrou semelhança entre ela e uma jovem que também aparecia ali entre outros jovens e depois num beijo-abraço com um namorado. E foi vendo. D repente, sentiu um chorinho leve chegando e reparou que ele chegava trazido pela memória: a menina do vestido rosa era ela! Ela sabia! Havia nelas duas e na jovem do beijo-abraço alguma coisa igual. E foi revirando as fotos, e foi ficando igual. E se deixou chorar um pouquinho. E quanto mais olhava, mais lembrava.

Correu e foi se olhar no espelho. Queria ter certeza que realmente poderia ser a menina das fotos. Levou junto a criança de rosa e a jovem do beijo. Na frente do espelho ajeitou os cabelos. As florzinhas da fronha não estavam mais decalcadas no rosto. Olhou-se e olhou as fotos, uma em cada mão. Sorriu. Era ela sim – mas bem poderiam ser outras pessoas –, pensou. Poderiam, mas não eram. E o que era aquilo então? O que é que via ali diante do espelho e nas mãos? O que a ligava àquelas pessoas, ora estranhas, ora parte dela? Sentiu-se confusa e achou que precisava lembrar-se de mais. Precisava lembrar de tudo. De tudo. Era necessário então, ordenar as fotos, calculou. Separá-las numa ordem cronológica vital, quem sabe assim ela seria capaz de entender? Quem sabe assim não houvesse mais dúvidas? E começou, foi separando: as da infância primeiro, logo depois viriam as da adolescência e depois as da idade adulta. Talvez enquanto fosse separando, pudesse ir recordando os detalhes, os pedacinhos de vida esquecidos.

Em que momento ela se recordaria do nexo entre ela e aquelas pessoas eternizadas? Onde estaria guardada essa coisa? Ela acreditou que ordenando as fotografias ela surgiria. Será que não percebia, ali sentada na cama, como agora a vejo, que também ela é uma fotografia? Mas ela estava procurando.

Assim, foi separando do monte maior, um outro montinho, aonde ia pacientemente despejando as fotos de criança. Foi revirando e encontrou um bebê.  Então decidiu que este seria o primeiro de todos os retratos: um bebê inchado. E a cara dele até poderia se parecer com aquela que não fizera questão de reconhecer quando acordara, de manhã cedo, ao se olhar no espelho. Ficou ali, cheia de uma ternura incontrolável, olhando aquele bebê enrolado numa manta cujo um nome escrito em letras bordadas martelava seus pensamentos: Matilda! Matilda! Ficou assim, consternada até que ouviu o choro do bebê. Um choro esganiçado. Sentiu um arrepio horroroso, um remexer nas entranhas. De repente percebeu que o choro do bebê vinha dela mesma, de seu próprio choro. Ela também estava chorando. Experimentou o frio, cólicas e tremores e se lembrou que há pouco desejara lembrar de tudo. Ficou quietinha, imóvel, olhando a foto do bebê de cara inchada. E chorava. É a memória que traz o choro, e, quando acontece, a gente fica igual, fica semelhante. Foi recordando, recordando, devagarzinho e sonolenta, recordou. Foi um assombro! Ela se lembrava! Lembrava daquele exato momento em que fora embrulhada na manta bordada Matilda. Seria possível? Sentiu um calor gostoso e ficou ali se esforçando pra ser aquilo.

 Estava mesmo muito assustada mas sentiu que já não podia deixar de lembrar. Contudo, o espanto maior ainda estava por vir: seria no meio dessa sensação deleitável, embrulhada na manta-Matilda que lhe viria a revelação. No instante seguinte, ainda embalada pela comoção acolhedora, começou a sentir-se fraca. Foi sentindo-se tão fraca e pequena, foi diminuindo, diminuindo até que, de repente, sua existência diminuta começava a ser tomada por uma vertigem desnorteante. Foi enfim invadida, ao mesmo tempo por uma sensação de fim de mundo, uma falta de coisas concretas e uma dorzinha miúda pelo corpo. – Assim deve ser nascer! – balbuciou assustada e sem muita consciência. E com a vontade descontrolada continuou se lembrando. Estava recordando o próprio nascimento e isso lhe parecia uma coisa sem nenhum sentido. E ela ia recordando, e se encolhendo e aos poucos, a dorzinha miúda ia se transformando numa coisa, numa vontade de sei lá o que, e a cabeça, pouco pensada, era só uma curiosa inexistência. E o corpo? o corpinho era tão molinho, tão molinho, que parecia não poder fazer mesmo outra coisa senão ser cuspido do ventre quente onde se encontrava. Até que chorou. Explodiu em pranto. Chorou muito, muito mesmo. E as lágrimas iam se misturando às águas do parto.

Foi então se acalmando, silenciando soluços, e pondo em ordem os sentimentos. Estava apavorada. Nunca presenciara tamanho encantamento. Não conseguia pensar, não conseguia nem mesmo saber a que ordem de coisas aquilo pertencia. Havia somente uma pergunta desordenada e flutuante no meio de tanta excitação: o que lhe aconteceria agora? Sentiu um cansaço enorme. Nascer era um esforço doloroso. Queria dormir um pouco. Afastou com cuidado os dois montinhos de retratos e deitou-se ao lado deles. Aos poucos foi pegando no sono. Ela ia dormir mas não faria muita questão de lembrar dos sonhos que tivesse agora. Sua história havia realmente começado.



Nenhum comentário:

Postar um comentário