Estava bastante calor e não
corria nenhum ventinho. Ela sentia um tremendo nervoso da blusa de viscose
colada no suor das costas e daquele bafo infernal que subia do chão. Os cabelos
mal arrumados, num improviso de rabo de cavalo torto e despenteado, davam a
exata impressão da aflição que ela sentia. Cruzou a pista e parou na próxima
calçada. Olhou a luz vermelha do sinal de trânsito. Piscou pra ela e no tempo
de abrir os olhos ela já havia se tornado aquele verde irritante. Atravessou apressada
na obrigação de acompanhar o ritmo da cidade.
Seguiu pela rua larga e sem muito
drama mantinha a cabeça baixa e os olhos fitando o chão. Ia vendo os sapatos,
tênis brancos, scarpins pretos cor de rosas e caramelos, sandálias de todo tipo
e os sapatinhos miúdos de crianças em passinhos ligeiro apertados. Ora via a
ponta dos próprios pés: as unhas curtinhas e limpas e os dedos em escadinha
dentro da sandália alta de tiras pretas. Os pés que queria, nunca teriam
aqueles joanetes velhos que carregava desde os tempos de menina bailarina.
Tentou apagar os joanetes enchendo o peito de ar e erguendo a cabeça pra frente
mas sentiu como se o calinho estivesse num latejar constante: não havia jeito
de negar o que era.
Parou bem de frente à porta de um
daqueles prédios enormes que desviam os ventos pra outros lugares. O reflexo da
mulher de saia preta e blusa branca de botões parou também. Ficou um tempo
parada, olhando o espelho da porta de vidro e pensando no que tinha que fazer
ali. Por um momento achou que pudesse esquecer. Foi se aproximando da mulher
reflexo até tocá-la. Com a ponta dos dedos fez leve pressão no encontro com os
dedos da outra e então a porta se abriu. O hall do prédio engoliu-a rápido e ela se
sentiu melhor porque lá dentro estava gelado e vazio: só um porteiro cochilando
sentado e os três elevadores antigos. Com um barulho qualquer fez despertar o
porteiro num sorriso amarelo. Devolveu um sorriso afável e reconfortante e
aguardou que ele terminasse no interfone e lhe desse a autorização: "sala 9001", ela antecipou.
- Pode subir. Ele está
esperando. Sala 9001.
- Obrigada. Resignou-se a responder tão baixo
para não saber mesmo se ele poderia ter escutado. "Será que escutou? Sala
9001", pensou de novo.
Caminhou mais um pouco e outra vez deu de cara com a mulher de saia preta e blusa branca no filete de espelho que havia na parede entre as portas dos elevadores. O espelho era fino e a mulher estava cortada ao meio. Ela não era bonita. Definitivamente não era. Mas havia nela qualquer coisa de que se agradava. Talvez o ar de menina frágil e a aparência desesperada. E isso também agradava aos homens: o porteiro não lhe tirava os olhos. Entrou no elevador, apertou o comando e enquanto olhava a porta restringi-la de vez naquela caixa medonha - tinha pavor de elevadores - , soltou os cabelos e ajeitou-os num novo rabo de cavalo. Preocupou-se desta vez que este não ficasse torto. Baixou a cabeça e viu novamente os joanetes. Encolheu os dedos num movimento quase involuntário e enquanto o elevador subia lembrou-se dos tempos de bailarina: ele a deixara com pernas firmes.
Caminhou mais um pouco e outra vez deu de cara com a mulher de saia preta e blusa branca no filete de espelho que havia na parede entre as portas dos elevadores. O espelho era fino e a mulher estava cortada ao meio. Ela não era bonita. Definitivamente não era. Mas havia nela qualquer coisa de que se agradava. Talvez o ar de menina frágil e a aparência desesperada. E isso também agradava aos homens: o porteiro não lhe tirava os olhos. Entrou no elevador, apertou o comando e enquanto olhava a porta restringi-la de vez naquela caixa medonha - tinha pavor de elevadores - , soltou os cabelos e ajeitou-os num novo rabo de cavalo. Preocupou-se desta vez que este não ficasse torto. Baixou a cabeça e viu novamente os joanetes. Encolheu os dedos num movimento quase involuntário e enquanto o elevador subia lembrou-se dos tempos de bailarina: ele a deixara com pernas firmes.
- Olá! Boa tarde! Como vai? Ouviu
a voz vindo de trás.
Virou-se e, no momento em que ia
tocar a campainha, viu, numa proximidade suficientemente incomoda, o feliz homem
educado:
- Fui ali...
- Hum-rum. Consentiu com a
cabeça liberando-o da explicação.
- Vamos entrando. E ela o
seguiu. Você está bonita hoje.
Observou o escritório, já
estivera ali inúmeras vezes mas ele nunca lhe parecia familiar. Colocou a bolsa
em cima de uma cadeira, sentou-se sobre a mesa e permaneceu observando o homem
se movimentar à vontade.
- O que vai querer? Ela esforçou-se
em demonstrar confiança. "Era essa a pergunta que faziam?" Pensou .
- Quer beber alguma coisa?
- Não obrigada. O que vai
querer? E gostou de perguntar isso mais uma vez.
- Vou beber alguma coisa,
importa-se?
Ela fez que não com a cabeça e
sorriu. Ela sabia bem o que ele queria.
- O que vou querer? Ele riu. Foi
tirando a carteira do bolso. Tratamos disso agora?
- É melhor... Conforme o
combinado. E já começava a se sentir muito segura e bonita também.
Ele foi se aproximando,
entregou-lhe o dinheiro e se ajoelhou. Ela observava os movimentos tranqüilos
do homem, e eles foram lhe revelando que todas as impressões que formulasse
sobre aquilo que estava acontecendo estariam envolvidas num mistério tão
grande que não poderiam jamais correr o risco de nenhum tipo de explicação.
Via-se de novo, agora sobreposta à paisagem cinzenta fixada no vidro da janela
de frente pra mesa. E via-se numa beleza extraordinária. Continuou olhando
atenta o que ele fazia: o homem vagarosa e gentilmente desabotoava suas
sandálias. E neste momento ela se amava muito, e num sentimento de poder muito
incrível, como se o ar que lhe entrava pelo corpo estivesse cheio de um doce
amornado e inexplicável que preenchiam os pensamentos d'umas futilidades muito
felizes e deliciosas. Depois de tirar as sandálias, deu-lhe um beijo em cada pé
e ergueu-se. Ela percebeu que ele passou muito de raspão o olhar na abertura
que a saia deixava entre suas pernas. Então se achou mais bonita ainda. O homem
beijou sua boca de leve, como se obedecesse a um ritual, e desabotoou a blusa
que ela num movimento lindíssimo de tão delicado terminou de tirar. Ele passou
os braços pelas suas costas procurando fecho, enquanto que, prevendo que queria
se livrar da parte de baixo da roupa, ela saltou da mesa deixando cair a saia
sobre os pés descalços. Já não se incomodava com os joanetes. As pernas eram
extremamente bonitas agora. Serviu-o como sempre achou que devem fazer as putas
e quando terminou de fazer o serviço ouviu o homem pedir-lhe o que já esperava:
- Agora dança pra mim Cláudia.
Dança?
Encheu-se de uma vulgaridade
confiante, vestiu suas roupas bem rapidamente, passou a mão no dinheiro que
havia ficado em cima da mesa, fez questão de conferir e, olhando bem nos olhos
daquele homem a quem se dedicara em amor por tanto tempo, e como se pudesse
punir-lhe por toda mágoa que ele causara cuspiu-lhe na cara um desdém
inventado:
- Não sou paga pra dançar.
Sorriu cínica e iluminada.
Abriu a porta, deixou pra trás o
sujeito com cara de bobo e seguiu se amando. Foi levando junto de si um rastro
invisível de joanetes, bailarinas, pernas, mulheres e amores mal resolvidos.

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