domingo, 2 de setembro de 2012

SEM TÍTULO





Parece que preciso decidir alguma coisa, e urgente. Sempre carreguei essa sensação. Esta noite acordei com medo de morrer. Tive vontade de mudar de casa, de não sair mais de dentro dela, de chorar. Tive medo até do escuro, da luz apagada, exatamente como uma memória infantil. Logo eu que, na duvidosa empáfia de minha autodescrição, me configuro na incredulidade dos espectros que assombram os homens. Mas não tinha explicação, aquele medo. Era medo só. E não havia transcendência nenhuma ali (apesar de sentir às vezes o pânico quase querência dos descrentes em se deparar com ela), só meus fantasmas, estes mesmos que me constituem.

Não era pra eu estar aqui. É essa a impressão. E onde então? Isso acompanha a urgência da decisão. Mas onde então? Não sei... a angústia pelo medo da morte fizeram incisivas a amofinação e a urgência. E me lembrei do começo. De um dos vários começos da vida. A lembrança sempre transforma o acontecimento num limite. Mas não foi precisamente do medo infantil que me lembrei, nem da sensação de espanto e sofrimento. Foi de mim mesma, de quando comecei a duvidar.

duvidar que existe Deus.
duvidar que existe um destino.
a sensação do que poderia não ser. 

O horror mesmo da morte como não existência.


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