Parece que preciso decidir alguma coisa, e urgente.
Sempre carreguei essa sensação. Esta noite acordei com medo de morrer. Tive
vontade de mudar de casa, de não sair mais de dentro dela, de chorar. Tive medo
até do escuro, da luz apagada, exatamente como uma memória infantil. Logo eu
que, na duvidosa empáfia de minha autodescrição, me configuro na incredulidade
dos espectros que assombram os homens. Mas não tinha explicação, aquele medo.
Era medo só. E não havia transcendência nenhuma ali (apesar de sentir às vezes
o pânico quase querência dos descrentes em se deparar com ela), só meus
fantasmas, estes mesmos que me constituem.
Não era pra eu
estar aqui. É essa a impressão. E onde então? Isso acompanha a urgência da
decisão. Mas onde então? Não sei... a angústia pelo medo da morte fizeram
incisivas a amofinação e a urgência. E me lembrei do começo. De um dos vários
começos da vida. A lembrança sempre transforma o acontecimento num limite. Mas
não foi precisamente do medo infantil que me lembrei, nem da sensação de
espanto e sofrimento. Foi de mim mesma, de quando comecei a duvidar.
duvidar que
existe Deus.
duvidar que
existe um destino.
a
sensação do que poderia não ser.
O horror mesmo
da morte como não existência.

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