Então eu disse: não, não vá!
Não me dê ordens!, ele respondeu.
Então, ok. Vá onde quiser, meu caro, porque eu sempre fui onde quis. Só não venha me dizer depois o que eu preciso fazer por você. Eu disse isso cheia de fé e orgulho, mas ele já tinha ido.
E me perguntei por mais de uma
noite e ainda durante muito tempo: que tipo de relação devo estabelecer com um
homem? Se não me causa angústia tê-lo desse jeito, haveria mesmo algum problema
nisso? Sim, eu tenho meus conflitos. Nem sei se é esse... não chega a me causar
dor. Por algum motivo eu rio deles. Ainda que este eu não consiga resolver.
Este em que me coloquei agora.
Custo a pagar no sono. Amo o
amor. Este mesmo que acredito que inventei. Inventei? O que me faz acreditar
que amo alguém senão eu mesma? Senão essa crença na possibilidade que se torna
essa própria invenção? Quem sou eu e quem é o outro? Este que me deveria ser
completamente estranho, mas que amei? Quem é? O que se tornou agora? Por que,
ainda depois de tudo, gostaria de amá-lo? "Esse romantismo classe média é
que é bonito na gente", você me disse um dia.
Será que um dia vou deixar de
amá-lo no que ele foi? Será que irei transformá-lo numa coisa qualquer que não
me desperte nem um amor e então ele deixará de ser, de um jeito que se torne
impossível amar, ou desnecessário, ou apenas inexistente? E isso é possível? É
viável? É assim?
Vou transformá-lo em outra coisa.
É impossível eternizar qualquer coisa... é simplesmente impossível, o eterno!
Apenas a memória é coerente.
Mas eu o amei. Da forma como se
pode amar a um homem desse tipo. Desde que o conheci ele sabia que seria
assim. Tinha de ser assim. "Eu cuido de você" foi o que ouvi. E, na
verdade, toda vez que me deitava com ele era isso que esperava. Poucas vezes
desejei outra coisa. Nós quisemos assim. Naquela noite, exatamente naquela
noite, quando te vi, eu quis que você fosse isto. Esse encanto em que me
coloquei, isso tudo, começou ali. Antes disso eu não sabia de nada. Muito pouco
me havia sido oferecido.
É estranho lembrar de sua beleza
naquela noite. O que foi que eu vi? Eu vi a paixão. Ela própria inflamada. Naquela pessoa dolorosa.
Não sei se chega a ser uma dor
essa ausência. Eu amo o amor. E me amo quando estou nele.
E agora isso.
Ele me perguntou se não me
apaixonaria de novo. Eu também já havia me perguntado. Ofereci-lhe o beijo
à boca com o entusiasmo e a eloquência abafada daqueles que fogem da resposta.

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