quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O ROMANCE




É paixão. Uma daquelas... 

Sempre gostei, cresci com eles, em meio a eles, a peixinhos dourados, princesas encasteladas, barquinhos de papel. Era meu pai quem sempre me trazia, junto com os doces, toda vez que chegava em casa do embarque na plataforma de petróleo. Livros e doces, e eu adorava.

Mas foi só depois, agora, depois de mais velha que reconheço a devoção. Antes era divertido e alegre. Agora é doloroso, como são as paixões. Foi a História que me fez isso, que iniciou isso: foi achar que era possível entender os processos humanos. Foi cair nessa ingenuidade. Mas eu não gosto mais dos historiadores. A História não é possível. Ela pretende muita coisa, ela quer pretender. Mas não consegue.

Não, nem é isso. Ela rejeita sua humanidade. E eu não a reconheço.

Eu me apaixonei pela literatura.

Ando com ele pra baixo e pra cima. E espero o momento de retomá-lo. Criei os laços. Lamentei a morte de Tereza e Tomas e compreendi Sabina. Me alegrei por Franz. Sinto falta deles e gosto de saber como andam suas vidas naquela página. Conheço suas vidas, faço parte delas. Eles agora estão em Praga. Tereza sofreu por Tomas.

Foi assim também com outros. É assim com todos. Compreendo as histórias. Fico dentro delas, pra sempre, circulando. É como se Praga fosse aqui. Como se o mar, o sertão, a cidade, fossem aqui. Tudo aqui. Em todos os lugares onde estou, em mim. Como se Macondo fosse aqui. 

E eu olho os livros, e os personagens estão lá, guardados, vivendo no livro. Dentro do livro. É lá dentro que neste momento, agora, agorinha, enquanto escrevo esse texto, estão se desenrolando suas histórias. Ele está fechado em cima da minha estante, mas olho o livro e eles estão lá: e o livro é transbordante e barulhento de tanta vida, com todas as suas pessoas carregadas de suas dores e alegrias. E eu sei que se abri-lo, a qualquer instante, os Buendías se desvendam novamente pra mim. 

Porque nesse momento eles estão conversando e guerreando. E Melquíades está apresentando a daguerreotipia à Macondo. E depois disso eles se reúnem, e cantam e choram, e as mulheres dão à luz uma sucessão de novos Buendías. E sofrem. E isto tudo está acontecendo agora. Neste exato momento.

Enquanto Sabina se olha no espelho com seu chapéu coco e Tereza sofre em pesadelos com Tomas.

E Baleia definha doente até a morte por tiro, a espera de um mundo cheinho de preás gordos e enormes.

E eu tantas vezes choro.


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