Manhã, de pé no ponto de ônibus, enquanto digitava uma mensagem no celular, observava o guri duns 16 ou 17 anos, negro, sujo, rasgado, descalço, com olhar perdido e expressão devastada, que andava de lá pra cá, entre uma calçada e outra, perambulava.
Parou na calçada de lá um pouco. Fiquei olhando o guri, ali, estático, corpo firme, magro, imundo. As manchas pretas de sujeira coladas na perna, no abdômen nu, manchas pretas como a pele dele, pele preta e sujeira como se fossem uma coisa só, num desígnio miserável e cruel, uma marca, indelével, cravada pelo tempo, o dele, de seu nascimento e vida, e o tempo de toda a história. Eu, branca, limpa, gorda, escovada, celular na mão, banho tomado, sem fome, sem dor, sem desespero, sem nenhuma vontade imediata, a caminho do trabalho, o maldito trabalho que odeio. Onde nasceu? Como se criou? Cadê a família? Tem fome? Que violências sofreu? Quantas vezes seu corpo magro e abandonado já foi violado? E de que maneiras que eu nem imagino? Apanhou? Foi estuprado? Espancado? Sente fome? Se enche de álcool e drogas. Certamente.
Eu não sei. Dói em mim, mas não pode doer mais que nele. Pisquei. E então ele vinha pela outra calçada, se aproximando, atravessou a rua, em minha direção. Me olhou. Veio, bem perto. Cheirava mal, cheiro de gente, cheiro de bicho. Me olhou. Eu não sei. Não sei. Eu, celular na mão. Olhei ele, quis ver por dentro, mas nem sou capaz, sou muito miserável, fitei. Uma hora paro, breco, cego, não sei ver. Diminuiu o passo, bem ao meu lado, eu, meu celular na mão. É claro que pensei. Na hora pensei. Nem me preocupei, entregaria, sou miserável, miserável, miserável. Ele quase parou. Eu não tive medo. Miserável e vazia, suspendi os sentidos pra não ter medo do que eu compreendia. Ele quase parou. Devagarinho, colado ao meu lado, me olhando. De repente o desânimo e a tristeza cresceram imensos em seu olhar, eu vi, juro que vi. Desviou os olhos de mim, olhou em volta, perdido, e pro outro lado. Olhei com ele. O que procura? Meu celular na mão. O que ele quer? Vimos um pedaço de pano no chão, na porta da loja em frente ao ponto. Seguiu em direção ao balcão da loja, se afastou de mim, eu permaneci junto dele, meu coração apertado, o que ele quer?, abaixou, catou o pano, uma barra de calça de brim, eu acho, ergueu e pediu baixinho, entredentes, ao homem na loja, posso levar?, o cara consentiu com a cabeça. Guardei o celular no bolso, ele não vai levar. Não senti nenhum alívio, só pesar. Sou miserável. Miserável e vazia. Sou toda a desgraça do mundo.
Ele aguardou, na beirada da rua, o sinal fechar. Continuei olhando. Achei que estava com ele, mas nunca vou estar. Minha miséria é pequena demais, só dói em mim, é tão pequena, tão idiota e egoísta, tem o tamanho de todos que são como eu, mas é pequena. Parou no carro na primeira fileira, esfregou a barra da calça de brim, desanimado e triste, ele já sabia o que seria, no vidro para-brisa do carro. Estendeu a mão. Nada. Foi ao do lado. Calça de brim, para-brisa, nada. E no outro. Nada. Na fileira de trás, nada. Terceira fileira, nada. Nada. Nada. Nada.
Nada.
Nada.
Nada.
Nada.
Como se criou? Cadê a família? O que comeu? Que violências sofreu? Só hoje, são 8h30 da manhã, quantas vezes seu corpo magro já foi violado?
Entrei no ônibus chorando. Quis pegar uma nota de 2 reais pra entregar a ele da janela, mas não deu tempo. Queria que ele tivesse, pelo menos, a satisfação momentânea de uma pedra de crack, se ele assim quisesse.
Minha miséria sou eu. Eu sou todas as misérias do mundo. E minha miséria é tão grande e pequena.
[Ele podia ter me assaltado. Não o fez. Deveria. Mas pediu ao cara da loja pra levar um trapo de pano velho jogado no chão.]