sábado, 21 de dezembro de 2013

VENENO



Hoje a noite ficou triste, sem sono, sem fala.
Eu tô sem graça, sem graça.
Há tempos ninguém fazia doer meu coração.
Hoje troquei a histeria do riso constante pela honestidade do choro manso.
Quem me vê rir de tudo não desconfia que eu quero alento?
Quem me vê rir de tudo não desconfia o que vai por dentro?
Hoje sou fraca, fraquinha.
Sou um rato. Um rato.
Desgraçado, sujo e magro.

[em março de 2011]

LUZES DA CIDADE



Sou de matéria fina, compacta e rasteira. Rápida e miserável.
Sou de tarde fugidia, de piscar de olhos modorrentos, que não cessam com o tempo.
Não fui eu quem parou o trânsito ontem pra você atravessar.
Desiste! Desiste. Desiste.
Você não vai me alcançar.
Tão tola, não vi que era eu mesma que passava enquanto... ai.
Enquanto me passava, dor física no coração, o aperto firme de teu peito rude e grosseiro.
Que odeio.
Que tola.
E os fitilhos de luz colorida de cidade na velocidade da janela do transporte via Aterro?
Eu não te disse que eram bonitos?
Estou em casa.
Estou morta.
Não estou, pra você.


[em março de 2011]

terça-feira, 13 de agosto de 2013

QUANTOS SÉCULOS MAIS?, NAVIO NEGREIRO.




Manhã, de pé no ponto de ônibus, enquanto digitava uma mensagem no celular, observava o guri duns 16 ou 17 anos, negro, sujo, rasgado, descalço, com olhar perdido e expressão devastada, que andava de lá pra cá, entre uma calçada e outra, perambulava.

Parou na calçada de lá um pouco. Fiquei olhando o guri, ali, estático, corpo firme, magro, imundo. As manchas pretas de sujeira coladas na perna, no abdômen nu, manchas pretas como a pele dele, pele preta e sujeira como se fossem uma coisa só, num desígnio miserável e cruel, uma marca, indelével, cravada pelo tempo, o dele, de seu nascimento e vida, e o tempo de toda a história. Eu, branca, limpa, gorda, escovada, celular na mão, banho tomado, sem fome, sem dor, sem desespero, sem nenhuma vontade imediata, a caminho do trabalho, o maldito trabalho que odeio. Onde nasceu? Como se criou? Cadê a família? Tem fome? Que violências sofreu? Quantas vezes seu corpo magro e abandonado já foi violado? E de que maneiras que eu nem imagino? Apanhou? Foi estuprado? Espancado? Sente fome? Se enche de álcool e drogas. Certamente.

Eu não sei. Dói em mim, mas não pode doer mais que nele. Pisquei. E então ele vinha pela outra calçada, se aproximando, atravessou a rua, em minha direção. Me olhou. Veio, bem perto. Cheirava mal, cheiro de gente, cheiro de bicho. Me olhou. Eu não sei. Não sei. Eu, celular na mão. Olhei ele, quis ver por dentro, mas nem sou capaz, sou muito miserável, fitei. Uma hora paro, breco, cego, não sei ver. Diminuiu o passo, bem ao meu lado, eu, meu celular na mão. É claro que pensei. Na hora pensei. Nem me preocupei, entregaria, sou miserável, miserável, miserável. Ele quase parou. Eu não tive medo. Miserável e vazia, suspendi os sentidos pra não ter medo do que eu compreendia. Ele quase parou. Devagarinho, colado ao meu lado, me olhando. De repente o desânimo e a tristeza cresceram imensos em seu olhar, eu vi, juro que vi. Desviou os olhos de mim, olhou em volta, perdido, e pro outro lado. Olhei com ele. O que procura? Meu celular na mão. O que ele quer? Vimos um pedaço de pano no chão, na porta da loja em frente ao ponto. Seguiu em direção ao balcão da loja, se afastou de mim, eu permaneci junto dele, meu coração apertado, o que ele quer?, abaixou, catou o pano, uma barra de calça de brim, eu acho, ergueu e pediu baixinho, entredentes, ao homem na loja, posso levar?, o cara consentiu com a cabeça. Guardei o celular no bolso, ele não vai levar. Não senti nenhum alívio, só pesar. Sou miserável. Miserável e vazia. Sou toda a desgraça do mundo.

Ele aguardou, na beirada da rua, o sinal fechar. Continuei olhando. Achei que estava com ele, mas nunca vou estar. Minha miséria é pequena demais, só dói em mim, é tão pequena, tão idiota e egoísta, tem o tamanho de todos que são como eu, mas é pequena. Parou no carro na primeira fileira, esfregou a barra da calça de brim, desanimado e triste, ele já sabia o que seria, no vidro para-brisa do carro. Estendeu a mão. Nada. Foi ao do lado. Calça de brim, para-brisa, nada. E no outro. Nada. Na fileira de trás, nada. Terceira fileira, nada. Nada. Nada. Nada.

Nada.

Nada.

Nada.

Nada.

Como se criou? Cadê a família? O que comeu? Que violências sofreu? Só hoje, são 8h30 da manhã, quantas vezes seu corpo magro já foi violado?

Entrei no ônibus chorando. Quis pegar uma nota de 2 reais pra entregar a ele da janela, mas não deu tempo. Queria que ele tivesse, pelo menos, a satisfação momentânea de uma pedra de crack, se ele assim quisesse.

Minha miséria sou eu. Eu sou todas as misérias do mundo. E minha miséria é tão grande e pequena.

[Ele podia ter me assaltado. Não o fez. Deveria. Mas pediu ao cara da loja pra levar um trapo de pano velho jogado no chão.]

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

PARA ROGÉRIO E LIDIANE





"Segundo a mitologia grega, para cruzar o Rio Aqueronte, que separa o Mundo real do Mundo dos mortos, e é chamado de o "Rio do Infortúnio", as almas dos defuntos precisariam dos serviços do barqueiro Caronte, que cobrava pela travessia um Óbulo (uma pequena moeda grega de cobre). Sendo que quando alguém não era enterrado com as moedas, o barqueiro Caronte se recusava transportar a alma do sujeito, e a alma do infeliz ficaria vagando pelo mundo sem rumo, por cerca de 100 anos."



que na segunda-feira - contava-nos ela inconsolável e chorando muito no carro a caminho do apartamento - haviam brigado e ele tinha deixado cair em seu carro uma caixinha preta. Dentro dela, um bilhetinho e uma moeda. Precisamos buscar a caixinha no apartamento, ela avisou desesperada, e nos contou a história de Caronte, a mesma que ele tinha lhe contado quando ela perguntou, então, o que era a caixinha, enquanto a devolvia. Ele havia reclamado, algumas semanas antes, no trabalho, que estava tão sem dinheiro, mas tão sem dinheiro, que não teria nem mesmo a moedinha do barqueiro, caso morresse, para poder fazer a travessia. E nas voltas e revoltas do amor, na confusão das coisas mexidas e reviradas, ele deixou cair no carro dela, junto com mágoas e outros sentimentos, a caixinha preta com a moedinha que a colega do trabalho lhe dera e dedicara, com graça e afeto, após ouvir sua queixa. Ela precisava levar até ele a caixinha com a moeda de Caronte que ele ganhara, era preciso devolver tudo, todo amor, todo sentimento, que ele também lhe havia devotado, a ela e ao mundo, e que ele tinha deixado cair no seu carro, na segunda-feira. E tudo cabia numa caixinha miúda, talhado numa moeda. Era preciso fazer isso por ele.

Hoje, ao retornar pra casa e lembrar de tudo, eu o vejo, muito claramente, sentado numa cadeira qualquer da capela, o corpo esguio, bonito e exato, com as longas pernas cruzadas, balançando de leve a de cima, e fumando seu cigarro; a cabeça, como sempre, erguida elegantemente no olhar altivo e superior e no sorriso oblíquo de quem observa a todos com aquela empáfia característica das pessoas que zombam com complacência do mundo e das coisas que se creem sérias (a mais forte impressão que me deixou quando o conheci), olhando pra gente e rindo, porque tinha certeza que levaríamos a ele sua moedinha.

E ontem, então, de mãos dadas, aperto forte e agoniado, como que segurando nelas um coração de dor imensa, nós levantamos cuidadosamente o véu fino que cobria seu corpo frio e tranquilo e pusemos a moedinha embaixo da mão dele.


***


O que é isso que separa o momento do corpo vivo, movimento iminente, reação, anseios, realidade, daquele outro e mesmo corpo frio e estático, vazio de tudo, de todas as coisas pensáveis, corpo, só corpo, imóvel em cima da cama? Que sopro breve e fugaz é esse?

A morte é pura incompreensão. Mas o amor nos conta histórias incríveis.

E agora, temos certeza, Rogério já chegou bem tranquilo e gaiteiro ao Hades.

sábado, 6 de julho de 2013

VEREDAS



Das paisagens mais significativas, mais emblemáticas, mais fortes e tristes e mais tristemente bonitas e poéticas que existem no Brasil, está a do Sertão. Os sulcos profundos no chão (onde mais eu já vi coisa tão impressionante assim, o chão, como vivo, se abrir em feridas desse jeito?), as carcaças dos bichos, os açudes que foram, os pés descalços e os corpos magros e infelizes, e o mandacaru, resistentes. Resistentes. O Sertão é resistente.

O Sertão é uma coisa tão enigmática, tão inexplicavelmente forte e poderosa que, com toda a pobreza, com toda miséria, ele produz beleza dentro da gente - de quem se deixa, de alguma forma, se despertar por ele.

O Sertão é um lugar? Um nome?, uma coisa?, um conceito? O que é o Sertão? Eu não sei o que é o Sertão. Ele não é só o chão rachado, só o gado morto, só o sertanejo. O sertão é tudo que somos, em beleza, em miséria, em gente, em bicho, em política, em natureza; e em tudo que podemos produzir sobre ele. O Sertão é coisa forte triste bela, ele é gigante, e cada fenda, cada bicho morto, cada mandacaru e cada homem do sertão, sou eu.

Guimarães Rosa nos cantou a pedra: "O sertão tá dentro da gente."

Um dia eu quero ir ao sertão como ele veio a mim.

SOBRE O SABER E O SABOR DA VIDA.




Frequentemente sou confrontada com minha própria ignorância e obrigada a admiti-la. E admitir, muitas vezes, que em assuntos em que tentei emitir algum juízo, verdadeiramente eu não sabia nada além das coisas que ouvia/via circular por aí. Que nada tinha lido a respeito, que nada tinha pesquisado sobre, que nunca tinha me dedicado, sequer, a ler e entender outros pontos de vista diferentes do meu, o de meus opositores (dos sérios e dedicados, não daqueles que, assim como eu, apenas repetem, reproduzem, papagaiam). Nada, nadinha, nenhum esforço, nenhuma linha de leitura, nenhuma pequena dedicação, nenhum artigo ou breve reflexão.

Em princípio, resistia. Por empáfia, por vaidade, pra ter razão, pra mostrar pra gente que tinha ainda menos acesso ao conhecimento do que eu, que eu era, em algo, melhor que elas; enfim, pelas tolices da juventude pobre e deslumbrada que, tantas vezes, necessita tanto autoafirmar-se.

Mas a velhice tem me livrado desses costumes bobos, e hoje eu agradeço a quem me faz dar de cara com minha própria ignorância.

E meu caminho é sempre o de aprofundar esse confronto, de esgarçar os limites dessa admissão. E dar início ao processo de tentar superar minhas próprias limitações no entendimento das coisas, de tentar me mover do lugar em que, confortavelmente, me encontro, e onde, comodamente, construí minhas convicções.

Às vezes isso me faz mudar de opinião. Às vezes serve pra aprofundar, reforçar e fortalecer os argumentos que, apenas superficialmente, defendia. Mas, quase sempre, me faz mudar de opinião, de alguma opinião. Porque sempre, sempre - e nunca não -, me faz mover, e todo movimento é uma transformação, e quem se move/transforma nunca estará de novo do mesmo jeito no mesmo lugar.

Então, da mesma forma como Foucault afirmou que a doença é apenas um ponto de vista sobre a saúde, a ignorância assim também o é sobre o saber.

E eu não tenho temor, constrangimento ou vergonha de não saber. Só tenho medo de seguir cultivando minha ignorância depois que me deparo com ela. Mas não porque penso que o saber, que o conhecimento, é algo privilegiado, que pode fazer de mim uma pessoa superior em julgamentos ou análises, uma pessoa "esclarecida", "culta" (tenho horror a essas palavras, e acho esses conceitos o total oposto do saber), ou alguém mais valioso ou mais importante que outras pessoas, e detentora de alguma verdade ou poder sobre elas; mas, simplesmente, porque acredito que saber é um movimento em direção ao amor e à tolerância: pelo que não entendemos, pelo que nos é estranho, pelo que nos causa temor, repulsa ou desgosto. Porque penso que o saber nunca é em si, que saber não é o resultado, não é uma certeza em que se chega, a qual se alcança, não é um fim, saber não é isso. O saber é menos o substantivo do que o verbo: o saber é sempre o movimento, é o processo, o caminho, percorrido e a percorrer, e sem fim, no exercício árduo e generoso, em direção a compreensão do outro - e que eu, decididamente, escolhi fazer.

A erudição é uma forma de poder, não de saber. Saber é outra coisa muito mais bonita e libertadora. Em sua raiz etimológica, a palavra saber tem a mesma origem da palavra sabor - o verbo SAPERE, que significa, ao mesmo tempo, "sentir o gosto" e "compreender" -, logo, fundamentalmente, saber é provar, é experimentar, e, por derivação de sentido, é também sentir-se e colocar-se no lugar do outro, compreendê-lo.

A todos que me esfregam na cara minha própria ignorância, meu muito obrigada.

SOBRE VÓS, MÃES, NETAS, FILHAS E MULHERES.





Agora há pouco eu tava lembrando da minha vó. Que morreu, velhinha, aos 94 [?] anos, de Alzheimer, ano passado.

Vovó acabou, pensei. E lembrei dela pequenininha, como que gasta pelo tempo, deitada em sua cama.

Vovó acabou, e nós a usamos até que ela acabasse. Usamos suas histórias velhas e loucas, que às vezes nos faziam rir e noutras causavam medo (é engraçado pensar que a gente nasce e a vó já é velha; a gente cresce e ela, velha; a gente vive a vida toda e a vó é sempre velha; como se não fosse nunca outra coisa, essa beleza); usamos seus doces caseiros, com bananas, mamão verde, laranja da terra, abóboras, tudo colhido no quintal; usamos seu colo; usei ela desembaraçar meus cabelos; usamos suas explicações sobre os cantos dos passarinhos, que ela adorava tanto - e que, mais tarde, sempre velha, nunca mais os quis ter em gaiolas. Usamos suas broncas, seus puxões de orelha (não é uma expressão conotativa, mas literal), suas perversidades: umas vezes a gente vencia e se ria dela, em outras ela nos alcançava e gozava ela. Não era exatamente uma pessoa boa. Não foi uma vó exemplar, dessas fofas, boazinhas, generosas, que se tem por aí. Era ruim até. Uma pessoa amarga, dolorida, fechada. Mas era vó, e a gente usava. E ela deixava a gente usar, um pouquinho, doses lentas, pequenas, esparsas, raspas. Ela nunca recebeu amor, só maus-tratos e violência, do pai, do marido, da vida - essa era sua história, a que eu nunca pude conhecer, a não ser por terceiros, porque quando eu a conheci, ela já era velha.

Pra gente, a vó nunca ficou obsoleta. Ninguém a abandonou, não foi descartada, não foi posta de lado porque não servia mais. A gente foi consertando, ajeitando, virava de um lado, virava de outro, fazia uns ajustes, botava uns remendos.

A gente usou muito a vó. A gente foi usando, usando, até que ela acabasse. Quando ela já estava doente, esquecida, a gente ainda usava ela, pra ouvir sempre os mesmos casos, pra rir com ela dos esquecimentos, pra sentir afeto em acalmá-la. A gente usava ela, porque, mesmo esquecida, ainda sabia cozinhar. Depois, já de cama, sem falar, sem andar, a gente usava seu sorriso, seu olhar e tudo que a gente podia lembrar dela. Depois a gente usou seu gesto. Depois a gente usou seu tato, o calor da sua pele, pra recolher beijos e memórias. Por fim, a gente usou dela o que havia de mais humano na gente, e ela tirou da gente o choro. E acabou.

E a gente nasceu nela mais uma vez.

E, mesmo finada, ela nasce todo dia na gente.

sábado, 25 de maio de 2013

A FLOR ELA, EU. [outro gineceu]

A saia rodada
pétala
o cabelo que meneia,
pra-lá-pra-cá,
soltando cheiro, polén, cor
gineceu.
Quando você se mexe,
ao vento
flor.
Quando você anda,
quando você dança,
é flor
que balança
frouxa, ao toque
cede.
Flor não fala
quando você fala,
beija-flor.
Quando você ri
é dia
floresce
flor.
Quando se entristece
terra
semente
já, já
flor.
Flor em você é ser
é predicado
sujeito
e verbo
que conjugas
no teu gesto
no teu feito
teu sorriso
tua dor.
Na tua vida
onde existes
em você
tudo flor
eu flor
tu flor
ela flor

Quando eu penso em você
meu pensamento flor.



[para Thaianna, esse hibisco germinado no meu coração.]

domingo, 24 de março de 2013

TODO DIA, UMA BAÍA



TEXTO II

Amo a baía e suas escalas. Em seus navios enormes e os barquinhos pesqueiros, miúdos, coitados, tão diminutos ao lado deles. Mas amo mais ainda o albatroz gigante, bem colado à janela do ônibus na ponte, com envergadura muito maior  que o enorme navio ao longe.

O albatroz é maior que o navio. E tudo cabe numa baía.

sábado, 16 de março de 2013

TODO DIA, UMA BAÍA






Praticamente todos os dias atravesso a Baía de Guanabara, desde que vim morar em Niterói. Não posso dizer que grande revolução isso trouxe pra mim. Eu nunca tinha notado a Baía de Guanabara. Não, nunca tinha. Eu já a tinha visto, claro, diversas vezes, mas eu nunca a tinha enxergado. Nascida e criada no Rio, no subúrbio do Rio, a Baía sempre foi tão parte de minhas vivências e passagens pela cidade, que nunca me dei ao trabalho de olhar pra ela. Sempre esteve ali, naturalmente ali, como meus braços e minhas pernas estão em mim.

Mas eu vim morar em Niterói. E, frequentemente, quando não estou acima, estou dentro dela.


E a Baía de Guanabara olhou pra mim. E eu, perplexa e encantada com seu chamado, pela primeira vez em toda a minha vida, eu a vi. Inteira. Complexa, profunda, desnaturalizada de minha desantenção e embrutecimento perante as coisas do mundo e da cidade.

Que linda baía. Que dádiva. A baía é viva, e todo dia ela me chama. Todo dia ela me convida a ser parte dela, a ser também beleza e vida.

E eu a observo, e sorrio dentro do ônibus, e mando beijos pra ela quando estou na barca, rasgando suas águas, dentro de seu corpo, atravessando suas artérias e seu coração.

Baía maravilhosa. Baía maravilhosa. Ela também atravessou meu coração. Deu voltas e voltas, navegou nele, bagunçou, revolveu, minhas substâncias, subiu pelo meu sangue até meus olhos, encheu minhas retinas de suas águas vermelhas, águou todas as minhas sinapses, desceu de volta ao peito, e nele permaneceu.

Quem não permaneceu fui eu.

Ela me tirou pra sempre do lugar bruto e sem vida em que eu me encontrava no Rio de Janeiro, no mundo, na vida. E agora, só agora, eu vejo de verdade essa cidade. A Baía de Guanabara me mostra a cidade, toda a cidade, a Baía me fala todo dia, me ensina coisas, sobre ela.

Obrigada, meu amor, minha linda baía.

Você não parece uma boca banguela.





Pra ouvir enquanto se descobre a Baía.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A CARTA



No beiral da janela, como morta, a gata deitada me olhava. Num toque breve empurrei a gata preta janela abaixo. Não, não pude ouvi-la cair. O som oco do corpinho estourando no chão tampouco me faria chorar, eu acho. Me lembrei que fiz isso, constantemente, nas últimas três semanas, eu matei nossa gata, desde que você partiu e deixou comigo, ela, a gata velha, registro de laço absurdo, sombra que me restava, caveira, esqueleto que me arrastava, sobra.

De repente, a gata, quase cega, entrou no quarto miando. E nesse momento exato foi que chegou a carta. A carta que eu odiei pra sempre, junto com a gata, a carta de perdão que você não me escreveu nunca, o porteiro avisou pelo interfone, a gata miou. Dois dias depois, somente, que eu fui à portaria retirá-la da caixa, e nesses dois dias eu só alimentei a gata. A maldita gata preta, cega, quase cega, de 12 anos, tão amada. No dia em que você partiu, eu disse: toma, leva essa carta. Não leia, não leia. Daqui a três semanas, eu sei, eu vou estar desesperada. Remeta a nosso endereço, a carta, assim, fechada. Por 12 anos, por tudo, por favor, faça. Me envie essa carta. Mentira, por favor leia, leia!, não falei. Pronto, toma, leve a carta, vá embora com ela.

E a carta chegou, no exato momento em que eu amava, digo, odiava, a gata. Chegou com as bordas coladas, envelope intacto, imaculada. Você nem abrira a carta. Você não leu,  você não soube. Não quis. Junto da carta, por fora, colado no envelope, um bilhetinho em caneta vermelha.

"Como você me pediu, a carta. Por favor, cuide de Catha. Beijo"

Catharina, a nossa gata.

Deitei o envelope na mesa, você não abriu a carta!, desci lentamente, eu mesma, minha alma ao inferno da comiseração e desgraça e chorei tudo, porque você nem soube o que eu merecia ter lido.

Vem cá, Catha, deita aqui, e dei um beijo nela. E também não abri a carta.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

BUSCOPAN COM VODCA




Tô arrasada.
Tô sofrendo.
Tô deprimida.
Tô abandonada.
Tô mal amada.
Tô distorcida.
Tô largada na vida.
Tô catacrética.
Esmigalhada.
Protonefrídia.
Esquisita.

Penso que pode ser grave.
Penso que pode ser paixão.

Mas é só a TPM. Merda.

Mesmo assim me dói, além do útero e tetas, o coração.