sábado, 6 de julho de 2013

SOBRE O SABER E O SABOR DA VIDA.




Frequentemente sou confrontada com minha própria ignorância e obrigada a admiti-la. E admitir, muitas vezes, que em assuntos em que tentei emitir algum juízo, verdadeiramente eu não sabia nada além das coisas que ouvia/via circular por aí. Que nada tinha lido a respeito, que nada tinha pesquisado sobre, que nunca tinha me dedicado, sequer, a ler e entender outros pontos de vista diferentes do meu, o de meus opositores (dos sérios e dedicados, não daqueles que, assim como eu, apenas repetem, reproduzem, papagaiam). Nada, nadinha, nenhum esforço, nenhuma linha de leitura, nenhuma pequena dedicação, nenhum artigo ou breve reflexão.

Em princípio, resistia. Por empáfia, por vaidade, pra ter razão, pra mostrar pra gente que tinha ainda menos acesso ao conhecimento do que eu, que eu era, em algo, melhor que elas; enfim, pelas tolices da juventude pobre e deslumbrada que, tantas vezes, necessita tanto autoafirmar-se.

Mas a velhice tem me livrado desses costumes bobos, e hoje eu agradeço a quem me faz dar de cara com minha própria ignorância.

E meu caminho é sempre o de aprofundar esse confronto, de esgarçar os limites dessa admissão. E dar início ao processo de tentar superar minhas próprias limitações no entendimento das coisas, de tentar me mover do lugar em que, confortavelmente, me encontro, e onde, comodamente, construí minhas convicções.

Às vezes isso me faz mudar de opinião. Às vezes serve pra aprofundar, reforçar e fortalecer os argumentos que, apenas superficialmente, defendia. Mas, quase sempre, me faz mudar de opinião, de alguma opinião. Porque sempre, sempre - e nunca não -, me faz mover, e todo movimento é uma transformação, e quem se move/transforma nunca estará de novo do mesmo jeito no mesmo lugar.

Então, da mesma forma como Foucault afirmou que a doença é apenas um ponto de vista sobre a saúde, a ignorância assim também o é sobre o saber.

E eu não tenho temor, constrangimento ou vergonha de não saber. Só tenho medo de seguir cultivando minha ignorância depois que me deparo com ela. Mas não porque penso que o saber, que o conhecimento, é algo privilegiado, que pode fazer de mim uma pessoa superior em julgamentos ou análises, uma pessoa "esclarecida", "culta" (tenho horror a essas palavras, e acho esses conceitos o total oposto do saber), ou alguém mais valioso ou mais importante que outras pessoas, e detentora de alguma verdade ou poder sobre elas; mas, simplesmente, porque acredito que saber é um movimento em direção ao amor e à tolerância: pelo que não entendemos, pelo que nos é estranho, pelo que nos causa temor, repulsa ou desgosto. Porque penso que o saber nunca é em si, que saber não é o resultado, não é uma certeza em que se chega, a qual se alcança, não é um fim, saber não é isso. O saber é menos o substantivo do que o verbo: o saber é sempre o movimento, é o processo, o caminho, percorrido e a percorrer, e sem fim, no exercício árduo e generoso, em direção a compreensão do outro - e que eu, decididamente, escolhi fazer.

A erudição é uma forma de poder, não de saber. Saber é outra coisa muito mais bonita e libertadora. Em sua raiz etimológica, a palavra saber tem a mesma origem da palavra sabor - o verbo SAPERE, que significa, ao mesmo tempo, "sentir o gosto" e "compreender" -, logo, fundamentalmente, saber é provar, é experimentar, e, por derivação de sentido, é também sentir-se e colocar-se no lugar do outro, compreendê-lo.

A todos que me esfregam na cara minha própria ignorância, meu muito obrigada.

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