Eu moro na palavra. Onde se gestam minhas flores e vivem todas as minhas mulheres.
sábado, 6 de julho de 2013
SOBRE VÓS, MÃES, NETAS, FILHAS E MULHERES.
Agora há pouco eu tava lembrando da minha vó. Que morreu, velhinha, aos 94 [?] anos, de Alzheimer, ano passado.
Vovó acabou, pensei. E lembrei dela pequenininha, como que gasta pelo tempo, deitada em sua cama.
Vovó acabou, e nós a usamos até que ela acabasse. Usamos suas histórias velhas e loucas, que às vezes nos faziam rir e noutras causavam medo (é engraçado pensar que a gente nasce e a vó já é velha; a gente cresce e ela, velha; a gente vive a vida toda e a vó é sempre velha; como se não fosse nunca outra coisa, essa beleza); usamos seus doces caseiros, com bananas, mamão verde, laranja da terra, abóboras, tudo colhido no quintal; usamos seu colo; usei ela desembaraçar meus cabelos; usamos suas explicações sobre os cantos dos passarinhos, que ela adorava tanto - e que, mais tarde, sempre velha, nunca mais os quis ter em gaiolas. Usamos suas broncas, seus puxões de orelha (não é uma expressão conotativa, mas literal), suas perversidades: umas vezes a gente vencia e se ria dela, em outras ela nos alcançava e gozava ela. Não era exatamente uma pessoa boa. Não foi uma vó exemplar, dessas fofas, boazinhas, generosas, que se tem por aí. Era ruim até. Uma pessoa amarga, dolorida, fechada. Mas era vó, e a gente usava. E ela deixava a gente usar, um pouquinho, doses lentas, pequenas, esparsas, raspas. Ela nunca recebeu amor, só maus-tratos e violência, do pai, do marido, da vida - essa era sua história, a que eu nunca pude conhecer, a não ser por terceiros, porque quando eu a conheci, ela já era velha.
Pra gente, a vó nunca ficou obsoleta. Ninguém a abandonou, não foi descartada, não foi posta de lado porque não servia mais. A gente foi consertando, ajeitando, virava de um lado, virava de outro, fazia uns ajustes, botava uns remendos.
A gente usou muito a vó. A gente foi usando, usando, até que ela acabasse. Quando ela já estava doente, esquecida, a gente ainda usava ela, pra ouvir sempre os mesmos casos, pra rir com ela dos esquecimentos, pra sentir afeto em acalmá-la. A gente usava ela, porque, mesmo esquecida, ainda sabia cozinhar. Depois, já de cama, sem falar, sem andar, a gente usava seu sorriso, seu olhar e tudo que a gente podia lembrar dela. Depois a gente usou seu gesto. Depois a gente usou seu tato, o calor da sua pele, pra recolher beijos e memórias. Por fim, a gente usou dela o que havia de mais humano na gente, e ela tirou da gente o choro. E acabou.
E a gente nasceu nela mais uma vez.
E, mesmo finada, ela nasce todo dia na gente.
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