segunda-feira, 5 de agosto de 2013

PARA ROGÉRIO E LIDIANE





"Segundo a mitologia grega, para cruzar o Rio Aqueronte, que separa o Mundo real do Mundo dos mortos, e é chamado de o "Rio do Infortúnio", as almas dos defuntos precisariam dos serviços do barqueiro Caronte, que cobrava pela travessia um Óbulo (uma pequena moeda grega de cobre). Sendo que quando alguém não era enterrado com as moedas, o barqueiro Caronte se recusava transportar a alma do sujeito, e a alma do infeliz ficaria vagando pelo mundo sem rumo, por cerca de 100 anos."



que na segunda-feira - contava-nos ela inconsolável e chorando muito no carro a caminho do apartamento - haviam brigado e ele tinha deixado cair em seu carro uma caixinha preta. Dentro dela, um bilhetinho e uma moeda. Precisamos buscar a caixinha no apartamento, ela avisou desesperada, e nos contou a história de Caronte, a mesma que ele tinha lhe contado quando ela perguntou, então, o que era a caixinha, enquanto a devolvia. Ele havia reclamado, algumas semanas antes, no trabalho, que estava tão sem dinheiro, mas tão sem dinheiro, que não teria nem mesmo a moedinha do barqueiro, caso morresse, para poder fazer a travessia. E nas voltas e revoltas do amor, na confusão das coisas mexidas e reviradas, ele deixou cair no carro dela, junto com mágoas e outros sentimentos, a caixinha preta com a moedinha que a colega do trabalho lhe dera e dedicara, com graça e afeto, após ouvir sua queixa. Ela precisava levar até ele a caixinha com a moeda de Caronte que ele ganhara, era preciso devolver tudo, todo amor, todo sentimento, que ele também lhe havia devotado, a ela e ao mundo, e que ele tinha deixado cair no seu carro, na segunda-feira. E tudo cabia numa caixinha miúda, talhado numa moeda. Era preciso fazer isso por ele.

Hoje, ao retornar pra casa e lembrar de tudo, eu o vejo, muito claramente, sentado numa cadeira qualquer da capela, o corpo esguio, bonito e exato, com as longas pernas cruzadas, balançando de leve a de cima, e fumando seu cigarro; a cabeça, como sempre, erguida elegantemente no olhar altivo e superior e no sorriso oblíquo de quem observa a todos com aquela empáfia característica das pessoas que zombam com complacência do mundo e das coisas que se creem sérias (a mais forte impressão que me deixou quando o conheci), olhando pra gente e rindo, porque tinha certeza que levaríamos a ele sua moedinha.

E ontem, então, de mãos dadas, aperto forte e agoniado, como que segurando nelas um coração de dor imensa, nós levantamos cuidadosamente o véu fino que cobria seu corpo frio e tranquilo e pusemos a moedinha embaixo da mão dele.


***


O que é isso que separa o momento do corpo vivo, movimento iminente, reação, anseios, realidade, daquele outro e mesmo corpo frio e estático, vazio de tudo, de todas as coisas pensáveis, corpo, só corpo, imóvel em cima da cama? Que sopro breve e fugaz é esse?

A morte é pura incompreensão. Mas o amor nos conta histórias incríveis.

E agora, temos certeza, Rogério já chegou bem tranquilo e gaiteiro ao Hades.

2 comentários:

  1. De: Lidiane Rabelo -Nossa Ana, sem palavras para agradecer sua mão amiga e forte me segurando para que eu pudesse me manter em pé, firme naquela realidade trágica, inaceitável.. Você foi uma força linda que cruzou meu caminho naquele momento ..Obrigada pelo lindo texto, obrigada pelo apoio, pelo carinho, pelo respeito a nossa historia, pela perfeita descrição do meu príncipe que me fez agora poder vê-lo exatamente da forma que é ...Meus Deus quanta saudade agora em nosso coração...

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  2. Essa história me marcou muito Lidiane, e ficou pra mim como a síntese do seu amor por ele, e da história de vocês - a sua vontade de levar a moedinha pra ele e todo o seu carinho nesse gesto. Achei incrível que até na morte ele tenha nos deixado sua poesia, foi uma das histórias mais bonitas que ouvi na vida. Tenho gratidão também por ter estado a seu lado, nesse momento tão duro e difícil, foi um momento de muita tristeza, mas também de reflexões e aprendizado, como sempre são os momentos difíceis em nossa vida. Muita força no seu coração, pra superar essa barra. Bjs.

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