Eu moro na palavra. Onde se gestam minhas flores e vivem todas as minhas mulheres.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
AGUADA
Há 3 longos dias não chove em mim.
Nada em mim.
Nada.
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Imagem: Aguada de Estela Marina Díaz. Disponível em: http://www.artelista.com/obra/9222641241672913-aguadaxiii.html
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
EM VIAGEM A SÃO PAULO [ou quando meu coração mora nos olhos]
Quando vejo em viagem na estrada as árvores ao longe, na cumeeira das montanhas e morros, a coroa bonita desenhando um horizonte
de curvas e vai-e-vens e rendas e reentrâncias, e deixando passar a luz do
sol por de trás de seus troncos, paredão falho e generoso
Eu tenho vontade de
mandar beijos pra elas.
Quando eu vejo árvores
de todos os tipos, no meio de largo descampado, na beira da estrada, dançando
ao vento, caducas, tristes com folhagens chorosas e caídas, ou de verde
vigorosa copa e ramagens espertas, quando eu as vejo, as altas, as baixas,
as redondas, as magras, todas elas
Eu tenho vontade de
mandar beijos pra elas.
Eu sei que,
as árvores todas, o
gramado verdinho, os arbustos pequenos e gorduchos, os passarinhos, o gado no
pasto, as flores rosas, lilases, amarelas, as desbotadas, as murchas em breve
fruto, forjando sementes, aquele riacho comprido, tímido, manso, fininho, ou o outro
enorme, ávido e caudaloso.
Tudo.
Tudo.
Todos eles.
Também mereciam
beijinhos.
♥
♥
O ROMANCE
É paixão. Uma daquelas...
Sempre gostei, cresci com eles, em meio a eles, a peixinhos dourados, princesas encasteladas, barquinhos de papel. Era meu pai quem sempre me trazia, junto com os doces, toda vez que chegava em casa do embarque na plataforma de petróleo. Livros e doces, e eu adorava.
Mas foi só depois, agora, depois de mais velha que reconheço a devoção. Antes era divertido e alegre. Agora é doloroso, como são as paixões. Foi a História que me fez isso, que iniciou isso: foi achar que era possível entender os processos humanos. Foi cair nessa ingenuidade. Mas eu não gosto mais dos historiadores. A História não é possível. Ela pretende muita coisa, ela quer pretender. Mas não consegue.
Não, nem é isso. Ela rejeita sua humanidade. E eu não a reconheço.
Eu me apaixonei pela literatura.
Ando com ele pra baixo e pra cima. E espero o momento de retomá-lo. Criei os laços. Lamentei a morte de Tereza e Tomas e compreendi Sabina. Me alegrei por Franz. Sinto falta deles e gosto de saber como andam suas vidas naquela página. Conheço suas vidas, faço parte delas. Eles agora estão em Praga. Tereza sofreu por Tomas.
Foi assim também com outros. É assim com todos. Compreendo as histórias. Fico dentro delas, pra sempre, circulando. É como se Praga fosse aqui. Como se o mar, o sertão, a cidade, fossem aqui. Tudo aqui. Em todos os lugares onde estou, em mim. Como se Macondo fosse aqui.
E eu olho os livros, e os personagens estão lá, guardados, vivendo no livro. Dentro do livro. É lá dentro que neste momento, agora, agorinha, enquanto escrevo esse texto, estão se desenrolando suas histórias. Ele está fechado em cima da minha estante, mas olho o livro e eles estão lá: e o livro é transbordante e barulhento de tanta vida, com todas as suas pessoas carregadas de suas dores e alegrias. E eu sei que se abri-lo, a qualquer instante, os Buendías se desvendam novamente pra mim.
Porque nesse momento eles estão conversando e guerreando. E Melquíades está apresentando a daguerreotipia à Macondo. E depois disso eles se reúnem, e cantam e choram, e as mulheres dão à luz uma sucessão de novos Buendías. E sofrem. E isto tudo está acontecendo agora. Neste exato momento.
Enquanto Sabina se olha no espelho com seu chapéu coco e Tereza sofre em pesadelos com Tomas.
E Baleia definha doente até a morte por tiro, a espera de um mundo cheinho de preás gordos e enormes.
E eu tantas vezes choro.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
A BALARINA
Como
quando a gente dançava juntos
a vida toda.
Às
vezes nus.
Às vezes bêbados.
Encantados.
Eu despida de fada,
em noites inteiras
em que via você me olhar.
Com olhos de um nunca abandono.
Eu queria
ser muito branca,
muito linda,
muito despida.
Queria
ser linda, amada, deitada.
Quando
foi que seus olhos pararam de me olhar?
Como
faço?
Me explica.
Como fico bonita?
Se
eu me pintar?
Colorida
e alegre
Você volta a se apaixonar?
E
se eu me adornar de novo.
Você
me ama?
como uma coisa pequena, pequenininha?
como uma coisa pequena, pequenininha?
Singular.
Linda
de se guardar.
E
se eu dançar?
E se eu cantar na madrugada?
E
se eu ficar bêbada
e a gente se amar?
Você
vai me encantar de novo?
Diz, como é que faço pra me enfeitar?
Me diz
que cores usar.
Diz.
Diz.
Diz.
Diz onde eu fui parar.
Se
não estou mais nas sextas-feiras onde aguardo você.
Nas
noites sonoras e mágicas onde te encontrava
apaixonada.
Onde
estou?
E
se eu me pintar, você me vê?
Se
eu arrumar os cabelos, se colocar vestido, colar.
E
se eu sorrir?
Você
vai me olhar?
Se
você me levar a algum bar, me tirar pra dançar.
Você
volta a me olhar?
Se
eu pintar minha boca, minha vida.
Você
vai me olhar?
E se
me olhar e meus olhos ainda olharem você?
Você
volta a se apaixonar?
E
se eu te pedir
Você
olha pra mim?
Você
fica feliz?
DRUMMOND
O amor é bicho instruído
Olha, o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
C.D. de Andrade
[todo meu amor]
[todo meu amor]
POEMINHA ROMÂNTICO
Apaixona-me o modo como te encaro
A ti e ao que é tão teu
Vejo o riso de tua angústia calada
E nele vejo também o meu
Guarda, amor, guarda estes versos
De tão singela e amadora poesia
Pois é cantando o momento de outrora
Que me desprende a incoerente alegria
Querendo, de tão belo, eternizá-lo
A imagem do ser tão amado
Diante da qual tantas vezes sorriu o meu
Recorro a meu querido amigo Machado[1]
“Como te não amaria eu?”
Porém, fixa bem em teus olhos
Estas minhas doces palavras
Porque te falo nesta hora
E com tristeza em demasia
O homem que me possuiu um dia
Com tão grande contento e alegria
É o que vai te restar agora
Nesta tua vida de mim tão vazia
A ti e ao que é tão teu
Vejo o riso de tua angústia calada
E nele vejo também o meu
Guarda, amor, guarda estes versos
De tão singela e amadora poesia
Pois é cantando o momento de outrora
Que me desprende a incoerente alegria
Querendo, de tão belo, eternizá-lo
A imagem do ser tão amado
Diante da qual tantas vezes sorriu o meu
Recorro a meu querido amigo Machado[1]
“Como te não amaria eu?”
Porém, fixa bem em teus olhos
Estas minhas doces palavras
Porque te falo nesta hora
E com tristeza em demasia
O homem que me possuiu um dia
Com tão grande contento e alegria
É o que vai te restar agora
Nesta tua vida de mim tão vazia
[1] Machado
de Assis em carta à Carolina Novais
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=50084&cat=Artigos&vinda=S
Imagem: Jan Saudek, "Adoration" - 1988
Imagem: Jan Saudek, "Adoration" - 1988
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