sexta-feira, 31 de agosto de 2012

NA ORDEM DO DIA



Gargalhava de.

braços abertos, pouco afastados. Do corpo, as mãos espalmadas pra cima, os olhos bem abertos, olhando. Pra si, pra dentro de si, ria alto. Em meio ao lixo, às carroças e seus catadores, ao pequeno trânsito de bicicletas na calçada. Alheia aos transeuntes e às pessoas paradas que esperavam, como ela, automáticas, seus ônibus naquele ponto, ria.  Louca e incompreendida da própria condição, enquanto o sangue, muito sangue, escorria pelas pernas. Depois de já ter lambuzado quase toda a saia e as mãos, as que tentaram contê-lo, parou de rir meio zonza. Com a cabeça meio torta. Como os olhares que a estranhavam, recolheu e guardou no coração toda a culpa.

Suspirou?

sentiu os olhares de escárnio perfurarem sua sobriedade. Atravessaram-na, acachapando a possibilidade de que ela fosse de seu coração pra fora. Então, ela também se guardou em si, sem nenhum pudor ou vergonha, apenas com cuidado.

E moveu-se

sangrando um rastro que ninguém ousaria, e enquanto seus ocasionais inquisidores seguem – de manhã, cedo, pras suas obrigações – ela partia. Embora audaz, num ritmo muito mais lento e outro que o tempo das interrogações despertas que morreriam rumo às contingências do dia.

O CÃO






Ele estava ali sentado, corpo ereto, orelhas espertas, cauda em riste, olhar atento ao longe desde o horizonte, ali, estático, quieto, sentinela na entrada do prédio. Já estava ali há tempos, e pretendia ficar ainda mais, por quanto fosse necessário. Sim, convicto. Ele ficaria.

Ele não sabia exatamente o que tinha acontecido, nem de rumores. ficou confuso com o movimento, mais cedo. gente andando pra lá e pra cá, gente que nunca tinha visto. um movimento. desorientado, aturdido. não compreendeu palavras. Vou latir. vou pra lá e pra cá. corro. não importava, mas sentiu o cheiro estranho e pôs-se em alerta. depois. ali. parado. ficou.

Ele sabia que a universidade e aquelas pessoas precisavam dele.



MABELLE & LUIZA







A miserável não tinha nome. Acordei.

Não tinha nome, nem telefone, nem uma cara, um rosto, a miserável tinha. Porque eu estava bêbada, completamente bêbada. Mas a miserável saiu de manhã cedo, antes d'eu acordar, largou todo seu cheiro na minha roupa de cama. Porra, que dor de cabeça, caramba.

Também fez o café da manhã e preparou a mesa. Num bilhete de guardanapo, com lápis de olho, me escreveu meia dúzia de delicadezas, amei tudo nos esbarramos e uma poesia do Rilke

um beijo,

Luiza.

Tudo o quê meu deus? Não lembro.

A miserável deixou o bilhete em cima da mesa da cozinha, sob o peso da orquídea arrancada na sala que há um ano eu esperava florir. E eu não pude não me apaixonar pra sempre por Luiza naquele dia.




O GATO




Uma dor tão intensa.

Não. não deu tempo. se encerrou.

Nada.

E toda ternura deu lugar a nada.






Antes.

sorrateiro, agachadinho, gorducho e peludo, surgiu veloz por debaixo do carro.  Ainda parou no meio-fio da calçada, deu uns três miados e.

Nunca saberemos por que atravessou.

De repente

Zás.

o monstro atropelou-lhe os quartos e deitou-lhe e.

então.

Pof!

o que vinha logo atrás esmagou a cabecinha ainda erguida que balançava zonza sobre o corpo no chão.



EU, PASSARINHO




Fechou os olhinhos miúdos de passarinho, sentiu o solzinho morno esquentar o flanco, eriçou a plumagem um pouco pra sentir o calor entrar nas penas até a pele, meneou, meneou, manejou o vôo, se deixando cair um pouco.

Sentiu o vento manso coçar carinhoso sua barriga, fechou de novo os olhos e achou que era gostoso e que era feliz e no seu piado interior de bicho saturado do cotidiano concreto da cidade pensou

como é bom voar por sobre os prédios.
(e ir parando nos beirais)



10 CONTOS SOBRE O ALTO-MAR






Navio

Como deve ser a noite em um navio?


***



Conto II

Depois de seis meses pagando as prestações, enfim Mabelle ia por seus pés naquele Cruzeiro.



***

O mergulhador e a arraia

Surgiu fugidia e arisca a arraia assustada entre as pedras ao sentir o mergulhador.


***


Conto

Era seu primeiro dia na plataforma de petróleo.



***


Conto V

Olhou da janela o horizonte, viu a embarcação luminosa e imaginou.



***


Conto de amor

Descamou o peixe com respeito e afeto, aquela consideração metafísica que se tem pelas coisas que vêm de longe.



***


Alto-mar (último conto)

Em sonho, navegava.