Um Gineceu De Muitas Anas
Eu moro na palavra. Onde se gestam minhas flores e vivem todas as minhas mulheres.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
Lésbicas são lindas em tantas línguas
Le lesbiche sono belle in così tante lingue
Inventário de um grande amor
(Para Lorena, ainda com suas botinas pesadas sobre meu coração)
Olha, amor, eu tô te devolvendo:
todos os beijos, teus cheiros, olhares,
tua língua inquieta, na minha, cheias de juras de amor e lesbianismo.
Queria te devolver, também, frase por frase, as juras de amor e
nossas longas conversas feministas, onde nossas idéias se beijavam tanto.
Devolver os feitos, os planos, o que foi e o que ainda seria,
o solo fértil, a semente e o broto, do nosso ser,
germinal, as memórias, promessas e os sonhos.
E ainda: as viagens, as feitas e vindouras,
os almoços, todas as nossas refeições, partilhadas ou imaginadas,
tudo que nos nutriu.
Quero te entregar de volta a nossa casa na tua cidade, em outro estado,
e a outra, a casa com varanda e gramado, na minha.
O café da manhã todos os dias na varanda, que combinamos,
pelo resto das nossas vidas juntas.
Te devolvo o resto de nossas vidas.
E nossos cachorros velhos, no nosso quintal de terra e afeto.
Devolver pra você as manhãs na roça de orvalho do pantanal,
cheias de araras e tucanos e farras de passarinhos, que a gente ria,
e a nossa galinha, Guerreira, que eu não cheguei a roubar.
Aliás, te devolvo todos os nossos bichos,
que brincaram nos nossos olhos e no quintal da nossa imaginação.
E os banhos de mangueira, as cervejas, o churrasco de vegetais,
a gente rindo tanto, a música alta, a dança,
os abraços nus dos nossos corpos em festa,
tantas vezes, bêbadas, e tão molhadas.
Queria devolver as brincadeiras de patins.
E nossas voltas de bike. E o vôo na tirolesa.
As apostas de vídeo game, a vontade de brincar juntas de novo.
O noivado no parque de diversões, todos os parques em que não fomos.
Os idílios da piscina colorida, todas as piscinas, rios, corredeiras, praias, banheiras,
todas as nossas águas e brincadeiras de amor.
As noites felizes. E as tristes em que nos consolamos.
Todas noites que não fomos ao Merceditas.
As noites estreladas do cosmo, a via láctea, a estrada,
você deitada no meu colo no ônibus na estrada,
e a estrada longa, de terra e céu, que ligava meu coração ao seu.
E a aurora boreal colorida e brilhante projetada no meu amor.
Sabe? Eu não queria ficar com nada.
Nem a tua imagem terna, forte e amada,
do teu rosto lindo, sapatão, que eu gosto tanto,
das pernas compridas e da tua bunda redonda, bonita.
Dos peitos pequenininhos, que eu tocava a toda hora,
o cangote macio, onde eu deixava beijos e cheirava alento.
Quero me desfazer dos peitos, rosto, beijos, desse alento, de tudo.
E da vulva aberta na flor da tua fêmea amante,
e do riso líquido do teu gozo quando eu tocava nela,
teu gosto tantas vezes, na minha boca.
Eu não quero mais guardar isso comigo.
Nem nossa coragem diante de todos os olhares hostis que enfrentamos juntas.
Nem nossa força e alegria contra todas as bocas que nos maldiziam.
Nem o tamanho enorme, gigante, que a gente era juntas.
Me desfaço. Da tua história, da tua presença sáfica, safada,
contada e recontada, em alegrias e dores, na letra L, do teu nome, Lésbica, Lorena.
A amante, a lésbica, o teu nome. Eu tô cuspindo tudo.
Tudo. Num amargo danado, do coração à boca.
Me desfaço daquela noite, você sabe, né?, meu coração veloz, desesperado,
a gente deitada frente a frente, os olhos encontrados,
e a canção que a gente ia ouvir ainda tantas vezes, juntas, sorrindo bobas,
depois daquela noite em que entendemos tudo.
Eu quero te devolver a minha paixão. Ir arrancando ela daqui, de mim,
devagarinho pra não doer mais e pra não deixar estragar mais nada.
Ir descolando, com cuidado, como quem tira visgo e fragmentos da ferida.
Tudo ainda tão grudado, em mim, tanta coisa,
na minha pele, nos meus ouvidos, retinas, neurônios,
dentro nos meus órgãos, no meu sexo,
debaixo das minhas unhas e narinas, na minha língua,
no peito aberto em mágoa, dolorido e cansado.
Eu vou arrancando tudo, todas as coisas, você,
com jeito, com cautela, cada pedaço, um a um. Tudo.
Os dias e noites de amor, o roçar lento e amoroso dos nossos corpos,
gemidos, nomes, juras, suspiros, sussurros, declarações de amor,
e o tesão louco da minha saudade, dos meus olhos e sentidos
tão repletos de você, felizes em te rever, em gozar você.
Vou tirar com cuidado pra não machucar e nem estragar mais nada:
1. todas as vezes que deitei meu corpo na serpente dançante do teu prazer,
2. a ilha ancestral, feliz e segura, das nossas camas,
3. a tua carne, teu ventre e teu colo quente, macio e cheiroso.
Lugares onde amei, vivi e morei com tanta força, o lar que sempre desejei.
Nada, não quero mais nada. Quero me desfazer de tudo. Tudo.
Memórias e sonhos, passado e futuro. Eu queria te mandar tudo de volta,
pelos correios, endereçado a tua nova casa,
essa em que eu não habito, onde nunca sequer pisei.
Devolveria tudo numa pequena caixinha imaginária,
junto com muita saudade e uma insistente vontade de perdão,
tudo intacto, preservado, tesouro imenso, valioso,
embrulhado no papel áspero e ingrato da tua traição.
Se eu pudesse.
Maricá, verão de 22/23.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
NÃO SOU DO TIPO QUE MATA
E por um átimo de segundo eu senti. Eu senti no meu pensamento, no meu coração e em cada célula do meu corpo, a sensação vigorosa que invade a pessoa que se sente capaz e faz. Aí, eu me lembrei que sou apenas uma mulher.
Uma mulher vivendo num romance de Kafka.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
JL diacronia
Cheiro morno de headphones e pescoço, nas minhas narinas.
Uma noite tão importante sobre quem eu sou.
Agora, elas passeiam órfãs no meu pensamento.
Que triste. Que grande desperdício.
Eu disse que não perderia meu tempo, nem meu afeto, escrevendo nada bonito sobre você. Mas a minha cabeça é traiçoeira, ela trama contra mim. Ela faz as coisas sem o meu consentimento. E as minhas mãos, sem vergonhas, vivem em conluio com ela.
Que raio de gente desobediente é essa que habita em mim? Quem é essa?
Mas a minha desobediência não vai se sobrepor à minha vontade: eu não te dedico. Sim, eu escrevi, não teve jeito, mas, saiba, pois que fique sabendo, que eu não te dedico esse escrito.
E que mulher ingrata que não viu minha poesia no pescoço dela, na noite dela, na diacronia dela. Que tola, me gastando assim, à toa.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
terça-feira, 8 de novembro de 2016
ODE À FORÇA, À CORAGEM E À RESISTÊNCIA DE TODAS AS MULHERES QUE VIVEM E QUE VIVERAM
Como uma faca de cortar esperanças.
Hoje a lua é lâmina que estanca o sonho
Segundos antes do golpe.
E o feixe de luz que me vaza os olhos pela insônia é
ÓDIO
Mas quando me aniquilam assim
O que me tomam é minha humanidade.
Porque eu insisto em permanecer
VIVA
E no instante de enlouquecer
No limiar da falta de esperança
Desarrazoada, desmatriada, desumana
No instante antes de descer a lâmina
De eu me esquecer quem eu sou
É o ódio que me traz à razão de novo
É o ódio que me re-humaniza em mim
Constantemente e sempre.
Porque constante e sempre
É a minha desumanização.
Então VIVA eu me esquivo do golpe
O que ia me acertar à cabeça
Bem no meio da minha razão.
Porque é o ódio que me faz não duvidar
É o ódio que me mantem a certeza
De que estou totalmente sã
De que eles estão errados
Que eu não estou louca
E nem descontrolada,
E que eu não preciso ser castigada
Como eles querem fazer parecer.
De que eu estou muito certa
De que eu sou humana
Eu estou muito certa de que:
EU SOU HUMANA
E que continuar acreditando nisso
É a única forma de me manter viva e sã
E que embora não seja necessariamente
Uma garantia disso, é a única forma
De a gente se manter vivas e sãs
É CONTINUAR ACREDITANDO.
EU CONTINUO ACREDITANDO.
E VOU CONTINUAR GRITANDO:
MULHERES, NÃO DESACREDITEM DE SUA HUMANIDADE.
Porque eu estou muito certa
De que a noite se acaba no dia
E que o medo também se finda
Quando já não se tem muita coisa
Além de uma certa alvorada íntima
E um machado, um machado
DE DUPLA LÂMINA
E porque eu estou muito certa
De que eu sou esse machado
De que isso é ancestral e poderoso
Um machado de duas lâminas
Que são duas e uma, juntas, unidas
Uma à outra pela mesma matéria
Que são duas lâminas de extirpar falos
É porque eu tenho uma Labrys
Ainda mais afiada que tua lua
De estancar nossos sonhos
Bem na ponta da minha língua
Bem no meio das minhas pernas
QUE NENHUM FALO IRÁ ME SILENCIAR
QUE MEU SEXO E MINHA LÍNGUA CONTINUARÃO GRITANDO LABRYS:
MULHERES, NÃO DESISTAM DE SUA HUMANIDADE!
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Festa no Convés
Se é no mar que eu demoro meus sonhos
[porque o amo] [o mar] [eu amo]
O mar só pode ser também teu corpo
E no teu sorriso me ancoro, e gosto
Enquanto do teu sexo bebo o mosto
Olha, vem, olha! Olha esse mar todo!
E olha como o convés é grande!
E onda, e anca, e dança, e balança
E brinca com a minha embriaguez
De mulher tonta. Boba. Frouxa.
E com as linhas curvas do teu corpo
Sob meus olhos embebedados
Pelo vinho dos meus devaneios tolos
Entre peixes cintilantes, aves marinhas, sereias gordas
Os vinhos de barris delirantes, de-li-ran-tes [Rio um pouco]
O mar escuro dos teus olhos gaivotam em voos
Loucos. Muito loucos! Ha ha ha ha
E mais, os polvos, oi?, polvos?, ahhhh!
Em tantos, parecem tantos!, abraços e uma dança...
Teu corpo gostoso, macio, ai, que gostoso!
Que dança doida! Que dança doida!
Que dança doida, mulher, no teu corpo!
Vem, vem, aqui, vem ver em mim, olha esse mundo!
Olha a gente, olha esse barco, esse mar, olha nosso corpo
Cheio de braços, abraços, meu deus, são quantos braços?
Sim, somos polvos! E peixes cintilantes e sereias fofas
Sinto tanto. Que tonta. Que louca! Sinto tanto, muito...
E enquanto você acende um cigarro
Ha Ha Ha Ha Haaaaaa eu gargalho!
E trago esse cheiro de fumaça doce
Meu deus, mais isso! E então eu... eu...
Eu... eu rio. De tudo. E me derramo
Em um mar de revoltos sentidos. E vejo
Como um farol ao longe, é teu riso
Porque tonta, sinto tudo que me é permitido
Esse vinho... Ei, mulher...
Mulher! Ai, esse vinho!
Esse vinho me deixa louca!
É o vinho? Não, não ri de mim mulher
[mas você ri tão gostoso!] [Nossa, que gostoso!]
Você me deixa louca. Toma!, e eu puxo um trago
Do teu cigarrinho louco, que maresia meu corpo
Enquanto você me conta uma história. Me conta outra?
E outra. E outra. E mais uma. E de novo um trago.
E mais vinho. Vinho e cigarro. Olha que doido. Tá rindo?
Você conta histórias de pescadora. Que eu amo.
E te ouço. E tu deita as histórias sobre o convés da minh'alma
E me deixa aqui tonta, dentro do barco do meu sonho.
Vem, mulher, vem que eu te afago, e te navego
E me gasto, e me doo, todinha, fácil, de graça
E me meto inteira nas tuas coxas
E de novo, de novo, de novo, de novo
Danço e me meto nas tuas coxas!
Sinto o cheiro da maresia. Que loucura, que delicia!
E do teu sexo maravilhoso na minha boca.
Um convés inteiro pra nós, mulher, tá vendo?
E, olha, sente o cheiro do mar
No meu peito. Todinho no meu peito
Gigante, meu peito gigante
Não, o mar... gigante... O gosto da tua boca
O mar, mulher, olha esse mar, que lindo!
Todinho, forte, imperioso, urgente
Invadindo a gente. Dentro da gente.
Sereias, peixes, piratas, polvos, todos presentes, histórias
Esse convés imaginário, que me encanta
Tão cheio dos seres cintilantes dos teus contos
Sob álcool e fumaça doce, ancorado no meu peito manso
E meu coração inteiro mareado, ondulante
Da tua presença marítima, psicoativa
E do teu cheiro na minha narina, na minha vida
Quente. Salgado. Na minha memória pra sempre.
Esse mar é muito doido. Tá vendo?
Esse mar é muita coisa dentro da gente.
[Para K. Com rimas frouxas e nenhuma métrica, porque estou bêbada de novo]
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
HUMANAS
Numa certa cidade, uma comunidade só de mulheres, desde sempre, elas odiavam seus filhos homens. Logo que nasciam, nascia também o horror: elas os jogavam fora – isso era Lei entre elas. Desprezavam absolutamente os nascidos no sexo masculino, jogavam-nos pelas florestas ou nos rios ou, simplesmente, os abandonavam, já nos lugares em que os tinham parido, para que morressem à míngua, de fome. Os poucos que não morriam, dizia-se, eram adotados e alimentados por animais selvagens, fêmeas de outras espécies, e sobreviviam como animais selvagens. E, como tal, por vezes, perdidos ou atrás de comida, invadiam a cidade e aterrorizavam as mulheres da comunidade: perseguiam e mordiam as crianças; invadiam as residências e se escondiam debaixo dos móveis, donde saiam, de surpresa, apavorados e irados, horrorizando todas as mulheres da casa; roubavam comida de cima das mesas ou das despensas; bagunçavam os objetos dentro dos cômodos e nos quintais; rosnavam e grunhiam para as mulheres e suas filhas nas ruas e as atacavam - e, muitas vezes, quando elas não conseguiam fugir ou se esconder, eles as pegavam.
Fora sempre assim, por anos, décadas (ou, ainda, segundo seus livros, literaturas e registros de histórias femininas, por séculos e milênios, e desde sempre, e antes mesmo da criação da cidade, em outros tempos e lugares, segundo seus registros, os homens sempre foram isso), em algumas determinadas épocas, anualmente, pequenos grupos deles apareciam, geralmente junto com os macacos ou hienas. Eram períodos de estio de água, de secas de rios e de falta de chuvas, quando a floresta ficava escassa de alimento, já que muitos animais que lhes serviam de presa, migravam pra outras regiões. Assim, todos os anos, durante a estação seca, eles retornavam das matas para a cidade, e, então, era o caos na comunidade: as atividades de preparação para o plantio e a colheita eram suspensas; as reuniões matinais diárias de compartilhamento de memórias e histórias para formação coletiva e educação dos afetos das meninas não podiam ser realizadas; os rituais de celebração do amor e da solidariedade entre as mulheres, realizados durante os fins de semana, eram interrompidos aos gritos de pavor cada vez que um arbusto se movimentava, que o vento assobiava ou que um vulto era percebido. Durante esse período, a grupa de autodefesa das mulheres era acionada e ficava permanentemente alerta, as mulheres e meninas evitavam sair de casa e, quando era necessário sair, as adultas usavam roupas espessas e compridas para proteger seus corpos de possíveis ataques. As festas com música eram suspensas, não se podia dançar de maneira nenhuma e bebidas alcoólicas e drogas recreativas não deviam ser consumidas em nenhuma hipótese; muito menos podiam banhar-se nuas – costume comum entre elas nos dias de ar seco e sol ardido – nos açudes que mantinham no entorno da cidade; e, menos ainda, podiam elas trocar, distraídas ou entretidas, carícias e afetos entre si pelas ruas e praças da comunidade – ouvira-se falar, e haviam registrado em suas memórias, nas histórias de suas ancestrais, que esses comportamentos, não se sabe mais o porquê, atraiam as bestas homens e despertavam neles ainda mais a ferocidade e a vontade de atacá-las e devorar suas carnes; e, sobretudo, as das meninas, por quem, imaginavam as mulheres, que, talvez, a carne mais tenra e macia, e a facilidade da presa, despertavam predileção das bestas. Com exceção da grupa de autodefesa, que se mantinha em revezamento na proteção da comunidade e na caça aos homens, todas as outras mulheres permaneciam, durante todo esse tempo, recolhidas no espaço doméstico, trancadas em suas casas, encarceradas, cuidando unicamente dos afazeres intestinos, exclusivamente das rotinas caseiras, de suas meninas e dos animais de estimação. Apenas por vezes, resistiam ao terror e insistiam em se reunir para as celebrações do amor e da solidariedade entre elas, onde, atentas e em regime de revesa pra autodefesa, não abriam mão de conversar, rir um pouco, ouvir umas às outras, celebrarem suas vidas, abraçarem-se e beijarem-se um bocado, ainda que rapidamente, porque escondidas de uma ameaça constante, para logo voltarem pra suas casas.
Mas, é claro que sim, que, no fundo, elas, muitas delas, praticamente quase todas elas, já haviam se questionado, ao menos uma vez, ou em muitas conversas, e também em alguns dos registros escritos das que vieram antes delas, se elas realmente deveriam crer que os homens eram mesmo essas bestas, sem objetivo, sem solução. Se, acaso, era esse verdadeiramente seu espírito, a natureza do homem, ou se o que os transformava em bestas era a necessidade de sobreviver nas florestas, justamente porque nelas eram abandonados. Por todos os séculos de existência da cidade, elas já se perguntavam por isso, e havia sim, entre elas, algumas narrativas e lendas de que os homens poderiam ser bons, de que poderiam ser dóceis e domesticados, havia contos, histórias e ficções de que algumas delas, no passado, haviam recolhido alguns filhotes jogados nas florestas e criados em seus quintais, como animais de estimação, e que eles até mesmo brincavam com as meninas, lambiam-lhes a face e corriam atrás delas rindo, sem fazer mal algum às pequenas. Que alguns chegavam a aprender a balbuciar algumas palavras e a demonstrar carinho e afeto por suas tutoras. Que em outros lugares, num passado distante e longínquo, num elo perdido, os homens chegaram a viver junto das mulheres em harmonia, um passado em que eram companhia e mutualismo, em que eles não as violentavam e nem matavam, em que fora possível a convivência em paz.
Mas as histórias de horror eram mais urgentes, profundas e mais materiais que as narrativas imaginadas, e a urgência e a materialidade sempre superaram as possíveis memórias remotas guardadas pelas lendas e pelas ficções, porque elas, as mulheres, as experimentavam, periodicamente: eram muito mais imensas as vivências, memórias e os relatos do que as feras selvagens dos homens faziam – tanto hoje, como no passado, e em vários outros lugares – quando alcançavam alguma delas, alguma menina que, distraída, colhia roupas no quintal, alguma mulher que, esquecida de se preparar para o estio, tinha caminhado até o roçado atrás de mandioca e batatas, ou alguma das que faziam ronda da autodefesa mas era pega de surpresa e não conseguia se defender: eles as seguravam com muita força, por vezes muitos deles juntos, num abraço mortal, a levavam para o meio da mata e, lá, arrancavam suas vestes, seus cabelos, arranhavam suas peles, socavam-nas, quebravam seus ossos e dentes, copulavam com elas se debatendo e gritando ou mesmo desmaiadas, e depois mordiam e rasgavam suas peles pelo ânus ou pela vagina e comiam seus corpos, dividindo entre si não somente o sexo, mas também a carne doce das mulheres e meninas. O horror. O mais terrível e brutal dos horrores.
No entanto, por vezes, algumas delas sobreviviam, e alguns homens eram mortos. Alguns conseguiam apenas copular e escapavam, iam embora, assustados pela reação de outras mulheres, ou morriam, degolados, mutilados, perfurados, golpeados por facas, lanças, machados e outros instrumentos, dessas mulheres que vinham, ainda em tempo, em socorro da vítima. E a essa eles não conseguiam devorar. E pra cada homem morto, havia também uma pequena celebração, e elas devolviam seus corpos mutilados para a floresta, para que os bichos de rapina os devorassem ou para que apodrecessem longe da cidade delas e voltavam e preparavam, então, a sua mais importante celebração, pois que pra cada mulher sobrevivente, havia também um ritual. Frequentemente acontecia de, nos meses que se seguiam, e, ainda, se fosse o caso, pelos 8 ou 9 meses posteriores, a comunidade se pôr a rezar e preparar rituais de choro e alegria: a tristeza e mortificação de algumas das suas talvez pudesse lhes gerar a vida. E, então, elas acolhiam a mulher sobrevivente, lhes davam banho com água de flores, preparavam coletivamente as suas comidas preferidas, deitavam-na, alimentavam-na, beijavam-lhe o corpo inteirinho e cuidavam de suas chagas. Algumas outras lhe beijavam o sexo – se ela assim quisesse – e faziam amor com ela, para que ela se acalmasse e se sentisse amada. As meninas se punham em volta dela a lhe contar histórias alegres e a dividir com ela as suas risadas de meninas. Cantavam, juntas, meninas e mulheres, músicas que faziam parte da história delas. Assim era até que ela se sentisse recuperada e forte, até que se entendesse capaz de decidir. E, portanto, se, ou quando, ela soubesse que estava grávida, e conforme sua vontade, as outras lhe dariam chás para abortar ou preparariam as rezas, rituais, unguentos e poções que seriam passadas em sua barriga para que nascessem mais algumas meninas, apenas meninas. E, ao fim de cada reza, um copo de um líquido denso e amargo era servido a todas elas, para despertar seus saberes ancestrais e para que, caso nascesse um menino, elas não perdessem a tranquilidade e a sabedoria sobre o que precisaria ser feito – e seguiam, com seus cânticos, carinhos, sorrisos e falas compartilhadas, a reforçar entre elas os laços e as memórias sobre o quão poderosas são as mulheres daquela comunidade, não apenas algumas delas, mas todas, tanto as que não concebem os frutos dessa barbárie ou as que decidem abortá-los, quanto as que parem as meninas ou as que jogam fora seus homens, ou as que nunca conceberam em hipótese alguma, mas que ali estão, com elas, entre todas elas. E cantavam e sorriam, por todo o tempo que fosse necessário até o nascimento ou a decisão, porque sabiam que a proteção, o poder de escolha e a força de criação está sempre no corpo das mulheres, e esses poderes são sempre de quem decide sobre eles, e elas sabiam que isso precisava ser sempre lembrado e celebrado pelas mulheres.
Assim, ainda que no fundo se perguntassem em suas histórias, ficções, tradições e memórias, se os homens eram naturalmente essas feras bestiais – elas não sabiam, elas nunca carregaram consigo essa certeza -, também no fundo elas sabiam que jogá-los fora era, de verdade, o único meio de se proteger deles caso realmente fossem. Não havia outra perspectiva, elas decidiram não pagar pra ver. E, assim, por séculos, elas faziam, e era Lei entre elas que continuassem, pra sempre, fazendo. Um acordo que, por amor e confiança profundada entre si, entre mulheres, e no que eram umas pras outras, elas sentiam muito plena e claramente que nunca poderiam desfazer, que nada em suas vidas era mais fundamental que essa certeza que elas criaram, que essa aliança criada entre as mulheres.
sábado, 24 de outubro de 2015
AS MULHERES SÃO A REVOLUÇÃO
Mulheres são lindas, mulheres são maravilhosas, mulheres são gigantes. A mais "submissa" e "patriarcal" das mulheres é mais revolucionária que qualquer autointitulado revolucionário entre os esquerdomachos.
As formas que elas encontram pra sobreviver à toda violência a que são submetidas, as formas que encontram para sobreviver a imposição do silêncio e do cárcere, à dominação, à dependência econômica e emocional, à destruição de suas autoestimas, às violentas tentativas redução de seus intelectos e suas capacidades físicas promovidas por seus maridos, por seu pai, pelos homens de sua família, pelos patriarcas de toda sociedade, tudo, tudo nelas é lindo, é revolucionário, os pequenos, pequeninos, às vezes quase invisíveis, gestos de insubordinação, um caderninho de poesias escrito aqui, uns panos de prato decorados ali, crochês, pinturas, versos, jardins, comidas, costuras, tudo, toda tentativa de expressar ao mundo o desejo de estarem vivas e se sentirem humanas, plenas e capazes, como é autorizado somente aos homens que sejam.
Dedico esse texto à minha amada mãe, Ana Maria, mulher guerreira e sobrevivente, que com sua sabedoria e força de expressão me ensinou a viver e lutar. <3
terça-feira, 22 de setembro de 2015
AMOR.
E, então, essa madrugada, nossa Lolô se foi.
Tenho ouvido das pessoas que elas não querem mais animais porque, em situações como essa, é muito sofrimento perde-los. Sim, de fato, a gente sofre, muito, mas eu posso dizer que foram 7 anos de alegria, afeto e que, muitas vezes, Lolô me salvou da tristeza e da depressão. 7 anos de alegria, afeto e generosidade que me ensinaram muito sobre a vida, sobre as coisas, sobre a natureza, animais, afeto, generosidade, sobre o mundo. Sim, bicho ensina. Pra qualquer pessoa que esteja aberta ao aprendizado generoso e cotidiano da natureza e de suas belezas, é possível aprender com planta, com rio, com mar, com terra, com bichos.
Lolô virou pra sempre ternura e generosidade em mim, no meu coração. <3








