quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Inventário de um grande amor

(Para Lorena, ainda com suas botinas pesadas sobre meu coração)  


Olha, amor, eu tô te devolvendo:

todos os beijos, teus cheiros, olhares,

tua língua inquieta, na minha, cheias de juras de amor e lesbianismo.

Queria te devolver, também, frase por frase, as juras de amor e

nossas longas conversas feministas, onde nossas idéias se beijavam tanto.

Devolver os feitos, os planos, o que foi e o que ainda seria,

o solo fértil, a semente e o broto, do nosso ser,

germinal, as memórias, promessas e os sonhos.

E ainda: as viagens, as feitas e vindouras,

os almoços, todas as nossas refeições, partilhadas ou imaginadas,

tudo que nos nutriu.

Quero te entregar de volta a nossa casa na tua cidade, em outro estado,

e a outra, a casa com varanda e gramado, na minha.

O café da manhã todos os dias na varanda, que combinamos,

pelo resto das nossas vidas juntas.


Te devolvo o resto de nossas vidas.

E nossos cachorros velhos, no nosso quintal de terra e afeto.

Devolver pra você as manhãs na roça de orvalho do pantanal,

cheias de araras e tucanos e farras de passarinhos, que a gente ria,

e a nossa galinha, Guerreira, que eu não cheguei a roubar.

Aliás, te devolvo todos os nossos bichos,

que brincaram nos nossos olhos e no quintal da nossa imaginação.

E os banhos de mangueira, as cervejas, o churrasco de vegetais,

a gente rindo tanto, a música alta, a dança,

os abraços nus dos nossos corpos em festa,

tantas vezes, bêbadas, e tão molhadas.


Queria devolver as brincadeiras de patins. 

E nossas voltas de bike. E o vôo na tirolesa.

As apostas de vídeo game, a vontade de brincar juntas de novo.

O noivado no parque de diversões, todos os parques em que não fomos.

Os idílios da piscina colorida, todas as piscinas, rios, corredeiras, praias, banheiras,

todas as nossas águas e brincadeiras de amor.

As noites felizes. E as tristes em que nos consolamos.

Todas noites que não fomos ao Merceditas.

As noites estreladas do cosmo, a via láctea, a estrada,

você deitada no meu colo no ônibus na estrada,

e a estrada longa, de terra e céu, que ligava meu coração ao seu.

E a aurora boreal colorida e brilhante projetada no meu amor.


Sabe? Eu não queria ficar com nada.

Nem a tua imagem terna, forte e amada,

do teu rosto lindo, sapatão, que eu gosto tanto,

das pernas compridas e da tua bunda redonda, bonita.

Dos peitos pequenininhos, que eu tocava a toda hora,

o cangote macio, onde eu deixava beijos e cheirava alento.

Quero me desfazer dos peitos, rosto, beijos, desse alento, de tudo.

E da vulva aberta na flor da tua fêmea amante,

e do riso líquido do teu gozo quando eu tocava nela,

teu gosto tantas vezes, na minha boca.

Eu não quero mais guardar isso comigo.

Nem nossa coragem diante de todos os olhares hostis que enfrentamos juntas.

Nem nossa força e alegria contra todas as bocas que nos maldiziam.

Nem o tamanho enorme, gigante, que a gente era juntas.

Me desfaço. Da tua história, da tua presença sáfica, safada,

contada e recontada, em alegrias e dores, na letra L, do teu nome, Lésbica, Lorena.

A amante, a lésbica, o teu nome. Eu tô cuspindo tudo.

Tudo. Num amargo danado, do coração à boca.


Me desfaço daquela noite, você sabe, né?, meu coração veloz, desesperado,

a gente deitada frente a frente, os olhos encontrados,

e a canção que a gente ia ouvir ainda tantas vezes, juntas, sorrindo bobas,

depois daquela noite em que entendemos tudo.


Eu quero te devolver a minha paixão. Ir arrancando ela daqui, de mim,

devagarinho pra não doer mais e pra não deixar estragar mais nada.

Ir descolando, com cuidado, como quem tira visgo e fragmentos da ferida.

Tudo ainda tão grudado, em mim, tanta coisa,

na minha pele, nos meus ouvidos, retinas, neurônios,

dentro nos meus órgãos, no meu sexo,

debaixo das minhas unhas e narinas, na minha língua,

no peito aberto em mágoa, dolorido e cansado.

Eu vou arrancando tudo, todas as coisas, você,

com jeito, com cautela, cada pedaço, um a um. Tudo.

Os dias e noites de amor, o roçar lento e amoroso dos nossos corpos,

gemidos, nomes, juras, suspiros, sussurros, declarações de amor,

e o tesão louco da minha saudade, dos meus olhos e sentidos

tão repletos de você, felizes em te rever, em gozar você.

Vou tirar com cuidado pra não machucar e nem estragar mais nada:

1. todas as vezes que deitei meu corpo na serpente dançante do teu prazer,

2. a ilha ancestral, feliz e segura, das nossas camas,

3. a tua carne, teu ventre e teu colo quente, macio e cheiroso.

Lugares onde amei, vivi e morei com tanta força, o lar que sempre desejei.

Nada, não quero mais nada. Quero me desfazer de tudo. Tudo.


Memórias e sonhos, passado e futuro. Eu queria te mandar tudo de volta,

pelos correios, endereçado a tua nova casa,

essa em que eu não habito, onde nunca sequer pisei.

Devolveria tudo numa pequena caixinha imaginária,

junto com muita saudade e uma insistente vontade de perdão,

tudo intacto, preservado, tesouro imenso, valioso,

embrulhado no papel áspero e ingrato da tua traição.


Se eu pudesse.


Maricá, verão de 22/23.





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