sábado, 6 de julho de 2013

VEREDAS



Das paisagens mais significativas, mais emblemáticas, mais fortes e tristes e mais tristemente bonitas e poéticas que existem no Brasil, está a do Sertão. Os sulcos profundos no chão (onde mais eu já vi coisa tão impressionante assim, o chão, como vivo, se abrir em feridas desse jeito?), as carcaças dos bichos, os açudes que foram, os pés descalços e os corpos magros e infelizes, e o mandacaru, resistentes. Resistentes. O Sertão é resistente.

O Sertão é uma coisa tão enigmática, tão inexplicavelmente forte e poderosa que, com toda a pobreza, com toda miséria, ele produz beleza dentro da gente - de quem se deixa, de alguma forma, se despertar por ele.

O Sertão é um lugar? Um nome?, uma coisa?, um conceito? O que é o Sertão? Eu não sei o que é o Sertão. Ele não é só o chão rachado, só o gado morto, só o sertanejo. O sertão é tudo que somos, em beleza, em miséria, em gente, em bicho, em política, em natureza; e em tudo que podemos produzir sobre ele. O Sertão é coisa forte triste bela, ele é gigante, e cada fenda, cada bicho morto, cada mandacaru e cada homem do sertão, sou eu.

Guimarães Rosa nos cantou a pedra: "O sertão tá dentro da gente."

Um dia eu quero ir ao sertão como ele veio a mim.

SOBRE O SABER E O SABOR DA VIDA.




Frequentemente sou confrontada com minha própria ignorância e obrigada a admiti-la. E admitir, muitas vezes, que em assuntos em que tentei emitir algum juízo, verdadeiramente eu não sabia nada além das coisas que ouvia/via circular por aí. Que nada tinha lido a respeito, que nada tinha pesquisado sobre, que nunca tinha me dedicado, sequer, a ler e entender outros pontos de vista diferentes do meu, o de meus opositores (dos sérios e dedicados, não daqueles que, assim como eu, apenas repetem, reproduzem, papagaiam). Nada, nadinha, nenhum esforço, nenhuma linha de leitura, nenhuma pequena dedicação, nenhum artigo ou breve reflexão.

Em princípio, resistia. Por empáfia, por vaidade, pra ter razão, pra mostrar pra gente que tinha ainda menos acesso ao conhecimento do que eu, que eu era, em algo, melhor que elas; enfim, pelas tolices da juventude pobre e deslumbrada que, tantas vezes, necessita tanto autoafirmar-se.

Mas a velhice tem me livrado desses costumes bobos, e hoje eu agradeço a quem me faz dar de cara com minha própria ignorância.

E meu caminho é sempre o de aprofundar esse confronto, de esgarçar os limites dessa admissão. E dar início ao processo de tentar superar minhas próprias limitações no entendimento das coisas, de tentar me mover do lugar em que, confortavelmente, me encontro, e onde, comodamente, construí minhas convicções.

Às vezes isso me faz mudar de opinião. Às vezes serve pra aprofundar, reforçar e fortalecer os argumentos que, apenas superficialmente, defendia. Mas, quase sempre, me faz mudar de opinião, de alguma opinião. Porque sempre, sempre - e nunca não -, me faz mover, e todo movimento é uma transformação, e quem se move/transforma nunca estará de novo do mesmo jeito no mesmo lugar.

Então, da mesma forma como Foucault afirmou que a doença é apenas um ponto de vista sobre a saúde, a ignorância assim também o é sobre o saber.

E eu não tenho temor, constrangimento ou vergonha de não saber. Só tenho medo de seguir cultivando minha ignorância depois que me deparo com ela. Mas não porque penso que o saber, que o conhecimento, é algo privilegiado, que pode fazer de mim uma pessoa superior em julgamentos ou análises, uma pessoa "esclarecida", "culta" (tenho horror a essas palavras, e acho esses conceitos o total oposto do saber), ou alguém mais valioso ou mais importante que outras pessoas, e detentora de alguma verdade ou poder sobre elas; mas, simplesmente, porque acredito que saber é um movimento em direção ao amor e à tolerância: pelo que não entendemos, pelo que nos é estranho, pelo que nos causa temor, repulsa ou desgosto. Porque penso que o saber nunca é em si, que saber não é o resultado, não é uma certeza em que se chega, a qual se alcança, não é um fim, saber não é isso. O saber é menos o substantivo do que o verbo: o saber é sempre o movimento, é o processo, o caminho, percorrido e a percorrer, e sem fim, no exercício árduo e generoso, em direção a compreensão do outro - e que eu, decididamente, escolhi fazer.

A erudição é uma forma de poder, não de saber. Saber é outra coisa muito mais bonita e libertadora. Em sua raiz etimológica, a palavra saber tem a mesma origem da palavra sabor - o verbo SAPERE, que significa, ao mesmo tempo, "sentir o gosto" e "compreender" -, logo, fundamentalmente, saber é provar, é experimentar, e, por derivação de sentido, é também sentir-se e colocar-se no lugar do outro, compreendê-lo.

A todos que me esfregam na cara minha própria ignorância, meu muito obrigada.

SOBRE VÓS, MÃES, NETAS, FILHAS E MULHERES.





Agora há pouco eu tava lembrando da minha vó. Que morreu, velhinha, aos 94 [?] anos, de Alzheimer, ano passado.

Vovó acabou, pensei. E lembrei dela pequenininha, como que gasta pelo tempo, deitada em sua cama.

Vovó acabou, e nós a usamos até que ela acabasse. Usamos suas histórias velhas e loucas, que às vezes nos faziam rir e noutras causavam medo (é engraçado pensar que a gente nasce e a vó já é velha; a gente cresce e ela, velha; a gente vive a vida toda e a vó é sempre velha; como se não fosse nunca outra coisa, essa beleza); usamos seus doces caseiros, com bananas, mamão verde, laranja da terra, abóboras, tudo colhido no quintal; usamos seu colo; usei ela desembaraçar meus cabelos; usamos suas explicações sobre os cantos dos passarinhos, que ela adorava tanto - e que, mais tarde, sempre velha, nunca mais os quis ter em gaiolas. Usamos suas broncas, seus puxões de orelha (não é uma expressão conotativa, mas literal), suas perversidades: umas vezes a gente vencia e se ria dela, em outras ela nos alcançava e gozava ela. Não era exatamente uma pessoa boa. Não foi uma vó exemplar, dessas fofas, boazinhas, generosas, que se tem por aí. Era ruim até. Uma pessoa amarga, dolorida, fechada. Mas era vó, e a gente usava. E ela deixava a gente usar, um pouquinho, doses lentas, pequenas, esparsas, raspas. Ela nunca recebeu amor, só maus-tratos e violência, do pai, do marido, da vida - essa era sua história, a que eu nunca pude conhecer, a não ser por terceiros, porque quando eu a conheci, ela já era velha.

Pra gente, a vó nunca ficou obsoleta. Ninguém a abandonou, não foi descartada, não foi posta de lado porque não servia mais. A gente foi consertando, ajeitando, virava de um lado, virava de outro, fazia uns ajustes, botava uns remendos.

A gente usou muito a vó. A gente foi usando, usando, até que ela acabasse. Quando ela já estava doente, esquecida, a gente ainda usava ela, pra ouvir sempre os mesmos casos, pra rir com ela dos esquecimentos, pra sentir afeto em acalmá-la. A gente usava ela, porque, mesmo esquecida, ainda sabia cozinhar. Depois, já de cama, sem falar, sem andar, a gente usava seu sorriso, seu olhar e tudo que a gente podia lembrar dela. Depois a gente usou seu gesto. Depois a gente usou seu tato, o calor da sua pele, pra recolher beijos e memórias. Por fim, a gente usou dela o que havia de mais humano na gente, e ela tirou da gente o choro. E acabou.

E a gente nasceu nela mais uma vez.

E, mesmo finada, ela nasce todo dia na gente.