Eu moro na palavra. Onde se gestam minhas flores e vivem todas as minhas mulheres.
sábado, 24 de outubro de 2015
AS MULHERES SÃO A REVOLUÇÃO
Mulheres são lindas, mulheres são maravilhosas, mulheres são gigantes. A mais "submissa" e "patriarcal" das mulheres é mais revolucionária que qualquer autointitulado revolucionário entre os esquerdomachos.
As formas que elas encontram pra sobreviver à toda violência a que são submetidas, as formas que encontram para sobreviver a imposição do silêncio e do cárcere, à dominação, à dependência econômica e emocional, à destruição de suas autoestimas, às violentas tentativas redução de seus intelectos e suas capacidades físicas promovidas por seus maridos, por seu pai, pelos homens de sua família, pelos patriarcas de toda sociedade, tudo, tudo nelas é lindo, é revolucionário, os pequenos, pequeninos, às vezes quase invisíveis, gestos de insubordinação, um caderninho de poesias escrito aqui, uns panos de prato decorados ali, crochês, pinturas, versos, jardins, comidas, costuras, tudo, toda tentativa de expressar ao mundo o desejo de estarem vivas e se sentirem humanas, plenas e capazes, como é autorizado somente aos homens que sejam.
Dedico esse texto à minha amada mãe, Ana Maria, mulher guerreira e sobrevivente, que com sua sabedoria e força de expressão me ensinou a viver e lutar. <3
terça-feira, 22 de setembro de 2015
AMOR.
Depois de mais de um mês de peleja com a Dolores, e, por fim, nesta última semana, ela internada em estado gravíssimo, praticamente em coma, fraquinha e miúda, ontem, pela primeira vez em todo esse tempo, apenas ontem, consegui olhar pra ela com tranquilidade, sem lamentar e chorar e, pela primeira vez em todo esse tempo, com muita tranquilidade e o coração muito cheio da ternura que ela sempre me despertou, chamei tranquila por seu nome e disse a ela que partisse, que iriamos ficar bem, que a amávamos muito e não queríamos que ela sofresse mais. Em alguns momentos ela tentou levantar a cabecinha, muito fraquinha e debilitada, e nós a beijamos e agradecemos os 7 anos de convivência feliz.
E, então, essa madrugada, nossa Lolô se foi.
Tenho ouvido das pessoas que elas não querem mais animais porque, em situações como essa, é muito sofrimento perde-los. Sim, de fato, a gente sofre, muito, mas eu posso dizer que foram 7 anos de alegria, afeto e que, muitas vezes, Lolô me salvou da tristeza e da depressão. 7 anos de alegria, afeto e generosidade que me ensinaram muito sobre a vida, sobre as coisas, sobre a natureza, animais, afeto, generosidade, sobre o mundo. Sim, bicho ensina. Pra qualquer pessoa que esteja aberta ao aprendizado generoso e cotidiano da natureza e de suas belezas, é possível aprender com planta, com rio, com mar, com terra, com bichos.
Lolô virou pra sempre ternura e generosidade em mim, no meu coração. <3
E, então, essa madrugada, nossa Lolô se foi.
Tenho ouvido das pessoas que elas não querem mais animais porque, em situações como essa, é muito sofrimento perde-los. Sim, de fato, a gente sofre, muito, mas eu posso dizer que foram 7 anos de alegria, afeto e que, muitas vezes, Lolô me salvou da tristeza e da depressão. 7 anos de alegria, afeto e generosidade que me ensinaram muito sobre a vida, sobre as coisas, sobre a natureza, animais, afeto, generosidade, sobre o mundo. Sim, bicho ensina. Pra qualquer pessoa que esteja aberta ao aprendizado generoso e cotidiano da natureza e de suas belezas, é possível aprender com planta, com rio, com mar, com terra, com bichos.
Lolô virou pra sempre ternura e generosidade em mim, no meu coração. <3
sábado, 20 de junho de 2015
CARTA DE DESPEDIDA ÀS MULHERES
Se eu morrer, ou melhor, quando eu morrer - agora ou mais tarde -, e meus textos estarão na internet (bendita internet!), e eu fiz questão de deixá-los na internet para que vocês leiam, se eu morrer, digam às mulheres, você que me lê, diga a todas as mulheres que você conhecer, que eu as amo, que eu as amei por toda minha vida, e ainda mais fortemente quando me descobri mulher como elas, na minha maturidade. Diga que as admirei por sua força, sua luta diária, cotidiana, interior, sua resistência e coragem, diga-lhes que eu as amei e admirei muito.
Peça desculpas a elas por mim. Diga que, mesmo nunca tendo conseguido me desacorrentar completamente dos homens, eu as amei.
E se elas perguntarem quem eu sou, diga-lhes exatamente que eu não sou nada: que eu não sou ninguém no mundo dos homens. Que eu não sou uma grande escritora, pensadora ou poeta; que nunca fui considerada genial, não fui bem sucedida em nenhuma carreira, não fui grande em nada, nunca produzi nada relevante, nunca publiquei um livro. Apenas produzi alguns textos na internet e deixei essa carta pra dizer que as amo. Que eu fui somente uma mulher comum, como elas, como você: sou filha, neta, sobrinha, irmã, amiga de mulheres, que, assim como eu, assim como elas e assim como você, foram extremamente abusadas pelos homens, diminuídas, tolhidas, roubadas em sua humanidade. Que também fui, assim como vocês, diversas vezes, abusada, violada, desqualificada, ofendida, diminuída, agredida e sexualmente molestada - desde a infância - por homens amados, por desconhecidos, por todos os tipos de homens. Diga-lhes que, também eu, fui dominada, classificada, nomeada, reduzida, impedida, boicotada, silenciada e ferida por eles. Que, neste mundo, eu não sou nada, sequer humana, como todas elas. E que, por isso mesmo, eu as amo. E também porque, no nosso mundo, assim como elas, no nosso mundo, eu fui forte, gigante, lutadora: eu gritei, me debati, briguei, resisti, engoli a seco o choro diversas vezes, me reergui e segui me impondo e vivendo e tentando existir e ser feliz mesmo diante de todo ódio e toda violência masculina contra mim, contra nós. Diga-lhes que apenas fui uma delas e que por isso mesmo, e por nenhum outro motivo, eu quero que elas saibam que eu as amo e admiro, cada uma delas, que nossa sociedade quer morta, dominada e calada.
Por favor, não quero que você diga isso somente às mulheres que você admira, as que orientam sua luta, as que de alguma forma perceberam o que o patriarcado e nossa sociedade são. Mas quero que diga a todas. A todas elas. Mesmo aquelas que você considera que não vão me dar a mínima, que vão rir de mim, dizer que não precisam do meu amor porque têm o amor dos homens. Diga, especialmente a essas, que eu não me importo, que eu as amo e acredito no poder e na força delas, que acredito que elas são inteligentes, capazes, fortes e lutadoras, que elas também vencem suas batalhas diárias e também sofrem em silêncio suas dores. Diga a elas que eu lhes disse que saibam que não estão sozinhas, e que procurem umas as outras, que se aconselhem, se protejam, cuidem umas das outras, de suas mães, filhas, primas, sobrinhas, amigas, mesmo que se aborreçam entre si de vez em quando.
Por favor, diga a todas, a todas mesmo, que eu as amo. Fale pra elas que houve, um dia, num tempo qualquer, uma mulher qualquer como elas que as amou e admirou pelo simples fato de elas serem mulheres e existirem nesse mundo e nessa sociedade de merda.
Obrigada, um beijo. Não esqueça, te amo.
Peça desculpas a elas por mim. Diga que, mesmo nunca tendo conseguido me desacorrentar completamente dos homens, eu as amei.
E se elas perguntarem quem eu sou, diga-lhes exatamente que eu não sou nada: que eu não sou ninguém no mundo dos homens. Que eu não sou uma grande escritora, pensadora ou poeta; que nunca fui considerada genial, não fui bem sucedida em nenhuma carreira, não fui grande em nada, nunca produzi nada relevante, nunca publiquei um livro. Apenas produzi alguns textos na internet e deixei essa carta pra dizer que as amo. Que eu fui somente uma mulher comum, como elas, como você: sou filha, neta, sobrinha, irmã, amiga de mulheres, que, assim como eu, assim como elas e assim como você, foram extremamente abusadas pelos homens, diminuídas, tolhidas, roubadas em sua humanidade. Que também fui, assim como vocês, diversas vezes, abusada, violada, desqualificada, ofendida, diminuída, agredida e sexualmente molestada - desde a infância - por homens amados, por desconhecidos, por todos os tipos de homens. Diga-lhes que, também eu, fui dominada, classificada, nomeada, reduzida, impedida, boicotada, silenciada e ferida por eles. Que, neste mundo, eu não sou nada, sequer humana, como todas elas. E que, por isso mesmo, eu as amo. E também porque, no nosso mundo, assim como elas, no nosso mundo, eu fui forte, gigante, lutadora: eu gritei, me debati, briguei, resisti, engoli a seco o choro diversas vezes, me reergui e segui me impondo e vivendo e tentando existir e ser feliz mesmo diante de todo ódio e toda violência masculina contra mim, contra nós. Diga-lhes que apenas fui uma delas e que por isso mesmo, e por nenhum outro motivo, eu quero que elas saibam que eu as amo e admiro, cada uma delas, que nossa sociedade quer morta, dominada e calada.
Por favor, não quero que você diga isso somente às mulheres que você admira, as que orientam sua luta, as que de alguma forma perceberam o que o patriarcado e nossa sociedade são. Mas quero que diga a todas. A todas elas. Mesmo aquelas que você considera que não vão me dar a mínima, que vão rir de mim, dizer que não precisam do meu amor porque têm o amor dos homens. Diga, especialmente a essas, que eu não me importo, que eu as amo e acredito no poder e na força delas, que acredito que elas são inteligentes, capazes, fortes e lutadoras, que elas também vencem suas batalhas diárias e também sofrem em silêncio suas dores. Diga a elas que eu lhes disse que saibam que não estão sozinhas, e que procurem umas as outras, que se aconselhem, se protejam, cuidem umas das outras, de suas mães, filhas, primas, sobrinhas, amigas, mesmo que se aborreçam entre si de vez em quando.
Por favor, diga a todas, a todas mesmo, que eu as amo. Fale pra elas que houve, um dia, num tempo qualquer, uma mulher qualquer como elas que as amou e admirou pelo simples fato de elas serem mulheres e existirem nesse mundo e nessa sociedade de merda.
Obrigada, um beijo. Não esqueça, te amo.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
GERMINAL
Quando eu a encontrei, a beira do precipício de uma cidade grande, com a alma já no infinito, ela era eu.
Quando a chamei, foi pra dentro de mim que olhei e gritei.
Quando ela se voltou pra mim, e eu sorri, aquela grande dúvida também era eu.
Então, estendi a mão, meu sorriso na ponta dos dedos, e ela sorriu também, nas pontas dos dedos dela.
Mas eu não a salvaria.
De dentro de si, eu jamais a salvaria. E não me salvei.
Seríamos juntas. Era assim pra Ser.
Passo a passo, ela saiu de si e veio pra mim. E eu quem era? A caminho dela.
Num abraço, saltamos juntas. Nem vi. Nem ela.
Meu peito colado no dela, nossos corações, motor.
Morreremos? Fecha meus olhos. Vem.
Três dias depois, pousamos num canto qualquer.
[em três dias, quem há de saber?]
Nos escondemos sob a terra fofa. É assim quando não se deseja ver o que acontece fora, de dentro da gente.
Dos vermes que nos comeram, que correram o solo até nos alcançar, como se fossemos homens.
Mas não éramos.
Não Somos.
Dos vermes que nos devoraram, flor e fruto.
A começar por nossos úteros, donde a terra entrou primeiro, estou certa que sim. Dele, donde parimos filhos intocados pelas mãos dos homens, nossos filhos e filhas, irmanados.
A terra que comemos mortas, depois do longo voo. Da terra que fecundou nossos úteros gêmeos, dos vermes que a transformaram em nós.
Dessa terra, nada mais.
Nossas crias, apenas.
Somos irmãs.
E raízes. E frutos.
E sempre voltaremos. Ao mundo, a nós.
Nossos olhos, pequenas sementes de abraço. Eu te vi. Pra sempre.
Somos muitas.
Te amo.
[Para Mariana, Rose, Thalissa e Luiza]
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