sexta-feira, 27 de junho de 2014

domingo, 13 de abril de 2014

SOBRE O AMOR PELAS CIDADES.






Existe um lugar onde o sol da manhã não vence a bruma fria da madrugada e ela só cessa de cair quando a barriga já reclama pelo almoço. Faz frio no outono. A bruma volta de noite.

Um lugar onde se colhe do pé a tangerina no mesmo lugar onde se bebe a cerveja. E onde todos os cachorros de rua são gordinhos e parecem felizes.

Tem maria fumaça. E o apito dela ecoa por toda cidade, alegrando e fazendo sorrir os visitantes. E faz a gente ter amor pela maria fumaça. Se pode passear nela por muito pouco dinheiro. Há gramados por todo lado, e muito pouco concreto. As ruas são de barro ou pedra e as casas são de madeira. Faz um calor marrom e gostoso dentro delas, como o afeto pela maria fumaça.

Os restaurantes e bares são nas varandas ou nos quintais dos moradores. A comida é uma só pra todo mundo: pra quem mora e pra quem vai embora. Comemos juntos: visitantes, moradores, funcionários e os donos das casas. E os cachorros provavelmente aguardam a sua vez.

Há galinhas e galos garnisés. Muitos galos cantam, pela manhã e por todo dia e até aos nossos pés, enquanto bebemos a cerveja. As galinhas atravessam pra lá e pra cá, ciscantes e alegres, ainda que no ritmo da pachorra do lugar, com seus pintinhos cheios de fofura e mistério da vida, pelo caminho, na nossa frente.

Haviam quatro pequenas tangerinas sobre a minha mesa. E uma garrafa de cerveja gelada. E bruma e gramado por todo lado. Alguma bruma permanece por todo o dia, ao lado e acima dos morros que cercam o vilarejo. E o cheiro do mato verde e das águas limpas da serra, e de todas as coisas vivas que existem nela, não cessam nunca, em toda cidade.

Meu Deus! É uma cidade cheia de cachorros gordinhos! Eles são muitos! E estão por todos os lados, tranquilos e preguiçosos, esparramados pelas ruas, pelas calçadas, dentro das casas, cochilando, caçando insetos, fazendo festa aos moradores, tomando sol na barriga. São de todos e não são de ninguém. A única preocupação deles é onde se deitar e coçar as pulgas. Há vasilhames com água por todo lado. E restinhos de comida e aparas em todos os bares. Gordinhos, muito gordinhos.

No IDH de uma cidade deveria ser incluído o índice de cachorros gordinhos que existem nela. Porque não há gente maltratada num lugar onde os bichos estão gordos e felizes. E quando as pessoas não têm urgências e agonias com que se entristecer e definhar, elas deixam potinhos de água nas portas de suas casas para os cãezinhos andarilhos.



Paranapiacaba, outono de 2014.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

PORCARIA II




Bailado bajogado hadrônico
lacônico quatuordecilhão
vulgar coração estrotejado
quatrumano eu sentado no chão
bicheiras longas noites estrupidadas
mear atos porcos envolvendo
pessoas partidas
partidas
patrulhas
vidas
cavo com as mãos a vida no chão
finco trinco e tranco aorta
morta


Isso também não é poesia.

Isso é outra merda.

PORCARIA



Branco esbranquiçado das paredes brancas
Metamorfoses em borboletas coladas
Voo entre o caos das cores da realidade
Ousadia estomacal nas vísceras borboletantes
Chego saio
Entro caio
Apareço à memória flutuante das noites memoráveis
Hemoglobinas mórbidas hematócitos homoeróticos
Caos voo sangue
Coisas caóticas em caixas murmurantes
Dentes trincados
Trincas gritantes
Homo hermético irritante



Não, isso não é uma poesia.

Isso é uma merda.