quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

NÃO SOU DO TIPO QUE MATA

Hoje, caminhando calada e de cabeça baixa da saída de uma audiência do Tribunal de Justiça Patriarcal até o momento de pegar o ônibus de volta pra casa, um pensamento invadia minha cabeça, mesmo sem eu querer: qual deve ser a sensação de matar um homem? E a sensação de cumprir a pena por ter matado um homem? Esse pensamento, num looping infinito, e infinitas variações de respostas. Tudo acontecendo na minha cabeça baixa de olhos fixos no chão.

E por um átimo de segundo eu senti. Eu senti no meu pensamento, no meu coração e em cada célula do meu corpo, a sensação vigorosa que invade a pessoa que se sente capaz e faz. Aí, eu me lembrei que sou apenas uma mulher.

Uma mulher vivendo num romance de Kafka.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

JL diacronia

Tem umas coisas que eu queria que não tivessem importância pra mim:

Cheiro morno de headphones e pescoço, nas minhas narinas.
Os movimentos tão diacronicamente partilhados do pensamento.
Uma noite tão importante sobre quem eu sou.

Essas memórias mereciam outra pessoa. 
Uma pessoa que soubesse o que elas significam pra mim.

Agora, elas passeiam órfãs no meu pensamento.

Que triste. Que grande desperdício.

Eu disse que não perderia meu tempo, nem meu afeto, escrevendo nada bonito sobre você. Mas a minha cabeça é traiçoeira, ela trama contra mim. Ela faz as coisas sem o meu consentimento. E as minhas mãos, sem vergonhas, vivem em conluio com ela.

Que raio de gente desobediente é essa que habita em mim? Quem é essa?

Mas a minha desobediência não vai se sobrepor à minha vontade: eu não te dedico. Sim, eu escrevi, não teve jeito, mas, saiba, pois que fique sabendo, que eu não te dedico esse escrito.

E que mulher ingrata que não viu minha poesia no pescoço dela, na noite dela, na diacronia dela. Que tola, me gastando assim, à toa.