quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

HUMANAS




Numa certa cidade, uma comunidade só de mulheres, desde sempre, elas odiavam seus filhos homens. Logo que nasciam, nascia também o horror: elas os jogavam fora – isso era Lei entre elas. Desprezavam absolutamente os nascidos no sexo masculino, jogavam-nos pelas florestas ou nos rios ou, simplesmente, os abandonavam, já nos lugares em que os tinham parido, para que morressem à míngua, de fome. Os poucos que não morriam, dizia-se, eram adotados e alimentados por animais selvagens, fêmeas de outras espécies, e sobreviviam como animais selvagens. E, como tal, por vezes, perdidos ou atrás de comida, invadiam a cidade e aterrorizavam as mulheres da comunidade: perseguiam e mordiam as crianças; invadiam as residências e se escondiam debaixo dos móveis, donde saiam, de surpresa, apavorados e irados, horrorizando todas as mulheres da casa; roubavam comida de cima das mesas ou das despensas; bagunçavam os objetos dentro dos cômodos e nos quintais; rosnavam e grunhiam para as mulheres e suas filhas nas ruas e as atacavam - e, muitas vezes, quando elas não conseguiam fugir ou se esconder, eles as pegavam.

Fora sempre assim, por anos, décadas  (ou, ainda, segundo seus livros, literaturas e registros de histórias femininas, por séculos e milênios, e desde sempre, e antes mesmo da criação da cidade, em outros tempos e lugares, segundo seus registros, os homens sempre foram isso), em algumas determinadas épocas, anualmente, pequenos grupos deles apareciam, geralmente junto com os macacos ou hienas. Eram períodos de estio de água, de secas de rios e de falta de chuvas, quando a floresta ficava escassa de alimento, já que muitos animais que lhes serviam de presa, migravam pra outras regiões. Assim, todos os anos, durante a estação secaeles retornavam das matas para a cidade, e, então, era o caos na comunidade: as atividades de preparação para o plantio e a colheita eram suspensas; as reuniões matinais diárias de compartilhamento de memórias e histórias para formação coletiva e educação dos afetos das meninas não podiam ser realizadas; os rituais de celebração do amor e da solidariedade entre as mulheres, realizados durante os fins de semana, eram interrompidos aos gritos de pavor cada vez que um arbusto se movimentava, que o vento assobiava ou que um vulto era percebido. Durante esse período, a grupa de autodefesa das mulheres era acionada e ficava permanentemente alerta, as mulheres e meninas evitavam sair de casa e, quando era necessário sair, as adultas usavam roupas espessas e compridas para proteger seus corpos de possíveis ataques. As festas com música eram suspensas, não se podia dançar de maneira nenhuma e bebidas alcoólicas e drogas recreativas não deviam ser consumidas em nenhuma hipótese; muito menos podiam banhar-se nuas  – costume comum entre elas nos dias de ar seco e sol ardido – nos açudes que mantinham no entorno da cidade; e, menos ainda, podiam elas trocar, distraídas ou entretidas, carícias e afetos entre si pelas ruas e praças da comunidade – ouvira-se falar, e haviam registrado em suas memórias, nas histórias de suas ancestrais, que esses comportamentos, não se sabe mais o porquê, atraiam as bestas homens e despertavam neles ainda mais a ferocidade e a vontade de atacá-las e devorar suas carnes; e, sobretudo, as das meninas, por quem, imaginavam as mulheres, que, talvez, a carne mais tenra e macia, e a facilidade da presa, despertavam predileção das bestas. Com exceção da grupa de autodefesa, que se mantinha em revezamento na proteção da comunidade e na caça aos homens, todas as outras mulheres permaneciam, durante todo esse tempo, recolhidas no espaço doméstico, trancadas em suas casas, encarceradas, cuidando unicamente dos afazeres intestinos, exclusivamente das rotinas caseiras, de suas meninas e dos animais de estimação. Apenas por vezes, resistiam ao terror e insistiam em se reunir para as celebrações do amor e da solidariedade entre elas, onde, atentas e em regime de revesa pra autodefesa, não abriam mão de conversar, rir um pouco, ouvir umas às outras, celebrarem suas vidas, abraçarem-se e beijarem-se um bocado, ainda que rapidamente, porque escondidas de uma ameaça constante, para logo voltarem pra suas casas.

Todo esse pavor que passavam, por anos e anos, e mais os registros de suas memórias, causavam-lhe um horror imenso dos homens e, assim, reafirmava-se a ideia íntima e coletiva de que os homens eram realmente bestas. Criaturas malditas, selvagens, monstros horrorosos e impossíveis de serem criados e cuidados por elas dentro da cidade, de sua comunidade. Reforçava-se a ideia de que era preciso, mais que isso, de que era uma necessidade inquestionável, desprezá-los, se livrar deles. E, assim, elas sempre, desde sempre, pelo que sabiam e diziam umas as outras, os jogavam fora, como fizeram suas mães, e as mães de suas mães, e como não puderam fazer, num passado distante, aquelas que foram, massivamente, vitimadas e mortas por essas pestes.

Mas, é claro que sim, que, no fundo, elas, muitas delas, praticamente quase todas elas, já haviam se questionado, ao menos uma vez, ou em muitas conversas, e também em alguns dos registros escritos das que vieram antes delas, se elas realmente deveriam crer que os homens eram mesmo essas bestas, sem objetivo, sem solução. Se, acaso, era esse verdadeiramente seu espírito, a natureza do homem, ou se o que os transformava em bestas era a necessidade de sobreviver nas florestas, justamente porque nelas eram abandonados. Por todos os séculos de existência da cidade, elas já se perguntavam por isso, e havia sim, entre elas, algumas narrativas e lendas de que os homens poderiam ser bons, de que poderiam ser dóceis e domesticados, havia contos, histórias e ficções de que algumas delas, no passado, haviam recolhido alguns filhotes jogados nas florestas e criados em seus quintais, como animais de estimação, e que eles até mesmo brincavam com as meninas, lambiam-lhes a face e corriam atrás delas rindo, sem fazer mal algum às pequenas. Que alguns chegavam a aprender a balbuciar algumas palavras e a demonstrar carinho e afeto por suas tutoras. Que em outros lugares, num passado distante e longínquo, num elo perdido, os homens chegaram a viver junto das mulheres em harmonia, um passado em que eram companhia e mutualismo, em que eles não as violentavam e nem matavam, em que fora possível a convivência em paz.

Mas as histórias de horror eram mais urgentes, profundas e mais materiais que as narrativas imaginadas, e a urgência e a materialidade sempre superaram as possíveis memórias remotas guardadas pelas lendas e pelas ficções, porque elas, as mulheres, as experimentavam, periodicamente: eram muito mais imensas as vivências, memórias e os relatos do que as feras selvagens dos homens faziam – tanto hoje, como no passado, e em vários outros lugares – quando alcançavam alguma delas, alguma menina que, distraída, colhia roupas no quintal, alguma mulher que, esquecida de se preparar para o estio, tinha caminhado até o roçado atrás de mandioca e batatas, ou alguma das que faziam ronda da autodefesa mas era pega de surpresa e não conseguia se defender: eles as seguravam com muita força, por vezes muitos deles juntos, num abraço mortal, a levavam para o meio da mata e, lá, arrancavam suas vestes, seus cabelos, arranhavam suas peles, socavam-nas, quebravam seus ossos e dentes, copulavam com elas se debatendo e gritando ou mesmo desmaiadas, e depois mordiam e rasgavam suas peles pelo ânus ou pela vagina e comiam seus corpos, dividindo entre si não somente o sexo, mas também a carne doce das mulheres e meninas. O horror. O mais terrível e brutal dos horrores.

No entanto, por vezes, algumas delas sobreviviam, e alguns homens eram mortos. Alguns conseguiam apenas copular e escapavam, iam embora, assustados pela reação de outras mulheres, ou morriam, degolados, mutilados, perfurados, golpeados por facas, lanças, machados e outros instrumentos, dessas mulheres que vinham, ainda em tempo, em socorro da vítima. E a essa eles não conseguiam devorar. E pra cada homem morto, havia também uma pequena celebração, e elas devolviam seus corpos mutilados para a floresta, para que os bichos de rapina os devorassem ou para que apodrecessem longe da cidade delas e voltavam e preparavam, então, a sua mais importante celebração, pois que pra cada mulher sobrevivente, havia também um ritual. Frequentemente acontecia de, nos meses que se seguiam, e, ainda, se fosse o caso, pelos 8 ou 9 meses posteriores, a comunidade se pôr a rezar e preparar rituais de choro e alegria: a tristeza e mortificação de algumas das suas talvez pudesse lhes gerar a vida. E, então, elas acolhiam a mulher sobrevivente, lhes davam banho com água de flores, preparavam coletivamente as suas comidas preferidas, deitavam-na, alimentavam-na, beijavam-lhe o corpo inteirinho e cuidavam de suas chagas. Algumas outras lhe beijavam o sexo – se ela assim quisesse – e faziam amor com ela, para que ela se acalmasse e se sentisse amada. As meninas se punham em volta dela a lhe contar histórias alegres e a dividir com ela as suas risadas de meninas. Cantavam, juntas, meninas e mulheres, músicas que faziam parte da história delas. Assim era até que ela se sentisse recuperada e forte, até que se entendesse capaz de decidir. E, portanto, se, ou quando, ela soubesse que estava grávida, e conforme sua vontade, as outras lhe dariam chás para abortar ou preparariam as rezas, rituais, unguentos e poções que seriam passadas em sua barriga para que nascessem mais algumas meninas, apenas meninas. E, ao fim de cada reza, um copo de um líquido denso e amargo era servido a todas elas, para despertar seus saberes ancestrais e para que, caso nascesse um menino, elas não perdessem a tranquilidade e a sabedoria sobre o que precisaria ser feito – e seguiam, com seus cânticos, carinhos, sorrisos e falas compartilhadas, a reforçar entre elas os laços e as memórias sobre o quão poderosas são as mulheres daquela comunidade, não apenas algumas delas, mas todas, tanto as que não concebem os frutos dessa barbárie ou as que decidem abortá-los, quanto as que parem as meninas ou as que jogam fora seus homens, ou as que nunca conceberam em hipótese alguma, mas que ali estão, com elas, entre todas elas. E cantavam e sorriam, por todo o tempo que fosse necessário até o nascimento ou a decisão, porque sabiam que a proteção, o poder de escolha e a força de criação está sempre no corpo das mulheres, e esses poderes são sempre de quem decide sobre eles, e elas sabiam que isso precisava ser sempre lembrado e celebrado pelas mulheres.

Assim, ainda que no fundo se perguntassem em suas histórias, ficções, tradições e memórias, se os homens eram naturalmente essas feras bestiais – elas não sabiam, elas nunca carregaram consigo essa certeza -, também no fundo elas sabiam que jogá-los fora era, de verdade, o único meio de se proteger deles caso realmente fossem. Não havia outra perspectiva, elas decidiram não pagar pra ver. E, assim, por séculos, elas faziam, e era Lei entre elas que continuassem, pra sempre, fazendo. Um acordo que, por amor e confiança profundada entre si, entre mulheres, e no que eram umas pras outras, elas sentiam muito plena e claramente que nunca poderiam desfazer, que nada em suas vidas era mais fundamental que essa certeza que elas criaram, que essa aliança criada entre as mulheres.