Se eu morrer, ou melhor, quando eu morrer - agora ou mais tarde -, e meus textos estarão na internet (bendita internet!), e eu fiz questão de deixá-los na internet para que vocês leiam, se eu morrer, digam às mulheres, você que me lê, diga a todas as mulheres que você conhecer, que eu as amo, que eu as amei por toda minha vida, e ainda mais fortemente quando me descobri mulher como elas, na minha maturidade. Diga que as admirei por sua força, sua luta diária, cotidiana, interior, sua resistência e coragem, diga-lhes que eu as amei e admirei muito.
Peça desculpas a elas por mim. Diga que, mesmo nunca tendo conseguido me desacorrentar completamente dos homens, eu as amei.
E se elas perguntarem quem eu sou, diga-lhes exatamente que eu não sou nada: que eu não sou ninguém no mundo dos homens. Que eu não sou uma grande escritora, pensadora ou poeta; que nunca fui considerada genial, não fui bem sucedida em nenhuma carreira, não fui grande em nada, nunca produzi nada relevante, nunca publiquei um livro. Apenas produzi alguns textos na internet e deixei essa carta pra dizer que as amo. Que eu fui somente uma mulher comum, como elas, como você: sou filha, neta, sobrinha, irmã, amiga de mulheres, que, assim como eu, assim como elas e assim como você, foram extremamente abusadas pelos homens, diminuídas, tolhidas, roubadas em sua humanidade. Que também fui, assim como vocês, diversas vezes, abusada, violada, desqualificada, ofendida, diminuída, agredida e sexualmente molestada - desde a infância - por homens amados, por desconhecidos, por todos os tipos de homens. Diga-lhes que, também eu, fui dominada, classificada, nomeada, reduzida, impedida, boicotada, silenciada e ferida por eles. Que, neste mundo, eu não sou nada, sequer humana, como todas elas. E que, por isso mesmo, eu as amo. E também porque, no nosso mundo, assim como elas, no nosso mundo, eu fui forte, gigante, lutadora: eu gritei, me debati, briguei, resisti, engoli a seco o choro diversas vezes, me reergui e segui me impondo e vivendo e tentando existir e ser feliz mesmo diante de todo ódio e toda violência masculina contra mim, contra nós. Diga-lhes que apenas fui uma delas e que por isso mesmo, e por nenhum outro motivo, eu quero que elas saibam que eu as amo e admiro, cada uma delas, que nossa sociedade quer morta, dominada e calada.
Por favor, não quero que você diga isso somente às mulheres que você admira, as que orientam sua luta, as que de alguma forma perceberam o que o patriarcado e nossa sociedade são. Mas quero que diga a todas. A todas elas. Mesmo aquelas que você considera que não vão me dar a mínima, que vão rir de mim, dizer que não precisam do meu amor porque têm o amor dos homens. Diga, especialmente a essas, que eu não me importo, que eu as amo e acredito no poder e na força delas, que acredito que elas são inteligentes, capazes, fortes e lutadoras, que elas também vencem suas batalhas diárias e também sofrem em silêncio suas dores. Diga a elas que eu lhes disse que saibam que não estão sozinhas, e que procurem umas as outras, que se aconselhem, se protejam, cuidem umas das outras, de suas mães, filhas, primas, sobrinhas, amigas, mesmo que se aborreçam entre si de vez em quando.
Por favor, diga a todas, a todas mesmo, que eu as amo. Fale pra elas que houve, um dia, num tempo qualquer, uma mulher qualquer como elas que as amou e admirou pelo simples fato de elas serem mulheres e existirem nesse mundo e nessa sociedade de merda.
Obrigada, um beijo. Não esqueça, te amo.