quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

GERMINAL











Quando eu a encontrei, a beira do precipício de uma cidade grande, com a alma já no infinito, ela era eu.

Quando a chamei, foi pra dentro de mim que olhei e gritei.
Quando ela se voltou pra mim, e eu sorri, aquela grande dúvida também era eu.
Então, estendi a mão, meu sorriso na ponta dos dedos, e ela sorriu também, nas pontas dos dedos dela.
Mas eu não a salvaria.
De dentro de si, eu jamais a salvaria. E não me salvei.

Seríamos juntas. Era assim pra Ser.

Passo a passo, ela saiu de si e veio pra mim. E eu quem era? A caminho dela.
Num abraço, saltamos juntas. Nem vi. Nem ela.
Meu peito colado no dela, nossos corações, motor.
Morreremos? Fecha meus olhos. Vem.


Três dias depois, pousamos num canto qualquer.
[em três dias, quem há de saber?]
Nos escondemos sob a terra fofa. É assim quando não se deseja ver o que acontece fora, de dentro da gente.
Dos vermes que nos comeram, que correram o solo até nos alcançar, como se fossemos homens.
Mas não éramos.

Não Somos.

Dos vermes que nos devoraram, flor e fruto.
A começar por nossos úteros, donde a terra entrou primeiro, estou certa que sim. Dele, donde parimos filhos intocados pelas mãos dos homens, nossos filhos e filhas, irmanados.


A terra que comemos mortas, depois do longo voo. Da terra que fecundou nossos úteros gêmeos, dos vermes que a transformaram em nós.
Dessa terra, nada mais.
Nossas crias, apenas.


Somos irmãs.
E raízes. E frutos.
E sempre voltaremos. Ao mundo, a nós.
Nossos olhos, pequenas sementes de abraço. Eu te vi. Pra sempre.

Somos muitas.

Te amo.

[Para Mariana, Rose, Thalissa e Luiza]