domingo, 13 de abril de 2014

SOBRE O AMOR PELAS CIDADES.






Existe um lugar onde o sol da manhã não vence a bruma fria da madrugada e ela só cessa de cair quando a barriga já reclama pelo almoço. Faz frio no outono. A bruma volta de noite.

Um lugar onde se colhe do pé a tangerina no mesmo lugar onde se bebe a cerveja. E onde todos os cachorros de rua são gordinhos e parecem felizes.

Tem maria fumaça. E o apito dela ecoa por toda cidade, alegrando e fazendo sorrir os visitantes. E faz a gente ter amor pela maria fumaça. Se pode passear nela por muito pouco dinheiro. Há gramados por todo lado, e muito pouco concreto. As ruas são de barro ou pedra e as casas são de madeira. Faz um calor marrom e gostoso dentro delas, como o afeto pela maria fumaça.

Os restaurantes e bares são nas varandas ou nos quintais dos moradores. A comida é uma só pra todo mundo: pra quem mora e pra quem vai embora. Comemos juntos: visitantes, moradores, funcionários e os donos das casas. E os cachorros provavelmente aguardam a sua vez.

Há galinhas e galos garnisés. Muitos galos cantam, pela manhã e por todo dia e até aos nossos pés, enquanto bebemos a cerveja. As galinhas atravessam pra lá e pra cá, ciscantes e alegres, ainda que no ritmo da pachorra do lugar, com seus pintinhos cheios de fofura e mistério da vida, pelo caminho, na nossa frente.

Haviam quatro pequenas tangerinas sobre a minha mesa. E uma garrafa de cerveja gelada. E bruma e gramado por todo lado. Alguma bruma permanece por todo o dia, ao lado e acima dos morros que cercam o vilarejo. E o cheiro do mato verde e das águas limpas da serra, e de todas as coisas vivas que existem nela, não cessam nunca, em toda cidade.

Meu Deus! É uma cidade cheia de cachorros gordinhos! Eles são muitos! E estão por todos os lados, tranquilos e preguiçosos, esparramados pelas ruas, pelas calçadas, dentro das casas, cochilando, caçando insetos, fazendo festa aos moradores, tomando sol na barriga. São de todos e não são de ninguém. A única preocupação deles é onde se deitar e coçar as pulgas. Há vasilhames com água por todo lado. E restinhos de comida e aparas em todos os bares. Gordinhos, muito gordinhos.

No IDH de uma cidade deveria ser incluído o índice de cachorros gordinhos que existem nela. Porque não há gente maltratada num lugar onde os bichos estão gordos e felizes. E quando as pessoas não têm urgências e agonias com que se entristecer e definhar, elas deixam potinhos de água nas portas de suas casas para os cãezinhos andarilhos.



Paranapiacaba, outono de 2014.