domingo, 24 de março de 2013

TODO DIA, UMA BAÍA



TEXTO II

Amo a baía e suas escalas. Em seus navios enormes e os barquinhos pesqueiros, miúdos, coitados, tão diminutos ao lado deles. Mas amo mais ainda o albatroz gigante, bem colado à janela do ônibus na ponte, com envergadura muito maior  que o enorme navio ao longe.

O albatroz é maior que o navio. E tudo cabe numa baía.

sábado, 16 de março de 2013

TODO DIA, UMA BAÍA






Praticamente todos os dias atravesso a Baía de Guanabara, desde que vim morar em Niterói. Não posso dizer que grande revolução isso trouxe pra mim. Eu nunca tinha notado a Baía de Guanabara. Não, nunca tinha. Eu já a tinha visto, claro, diversas vezes, mas eu nunca a tinha enxergado. Nascida e criada no Rio, no subúrbio do Rio, a Baía sempre foi tão parte de minhas vivências e passagens pela cidade, que nunca me dei ao trabalho de olhar pra ela. Sempre esteve ali, naturalmente ali, como meus braços e minhas pernas estão em mim.

Mas eu vim morar em Niterói. E, frequentemente, quando não estou acima, estou dentro dela.


E a Baía de Guanabara olhou pra mim. E eu, perplexa e encantada com seu chamado, pela primeira vez em toda a minha vida, eu a vi. Inteira. Complexa, profunda, desnaturalizada de minha desantenção e embrutecimento perante as coisas do mundo e da cidade.

Que linda baía. Que dádiva. A baía é viva, e todo dia ela me chama. Todo dia ela me convida a ser parte dela, a ser também beleza e vida.

E eu a observo, e sorrio dentro do ônibus, e mando beijos pra ela quando estou na barca, rasgando suas águas, dentro de seu corpo, atravessando suas artérias e seu coração.

Baía maravilhosa. Baía maravilhosa. Ela também atravessou meu coração. Deu voltas e voltas, navegou nele, bagunçou, revolveu, minhas substâncias, subiu pelo meu sangue até meus olhos, encheu minhas retinas de suas águas vermelhas, águou todas as minhas sinapses, desceu de volta ao peito, e nele permaneceu.

Quem não permaneceu fui eu.

Ela me tirou pra sempre do lugar bruto e sem vida em que eu me encontrava no Rio de Janeiro, no mundo, na vida. E agora, só agora, eu vejo de verdade essa cidade. A Baía de Guanabara me mostra a cidade, toda a cidade, a Baía me fala todo dia, me ensina coisas, sobre ela.

Obrigada, meu amor, minha linda baía.

Você não parece uma boca banguela.





Pra ouvir enquanto se descobre a Baía.