No beiral da janela, como morta, a gata deitada me olhava. Num toque breve empurrei a gata preta janela abaixo. Não, não pude ouvi-la cair. O som oco do corpinho estourando no chão tampouco me faria chorar, eu acho. Me lembrei que fiz isso, constantemente, nas últimas três semanas, eu matei nossa gata, desde que você partiu e deixou comigo, ela, a gata velha, registro de laço absurdo, sombra que me restava, caveira, esqueleto que me arrastava, sobra.
De repente, a gata, quase cega, entrou no quarto miando. E nesse momento exato foi que chegou a carta. A carta que eu odiei pra sempre, junto com a gata, a carta de perdão que você não me escreveu nunca, o porteiro avisou pelo interfone, a gata miou. Dois dias depois, somente, que eu fui à portaria retirá-la da caixa, e nesses dois dias eu só alimentei a gata. A maldita gata preta, cega, quase cega, de 12 anos, tão amada. No dia em que você partiu, eu disse: toma, leva essa carta. Não leia, não leia. Daqui a três semanas, eu sei, eu vou estar desesperada. Remeta a nosso endereço, a carta, assim, fechada. Por 12 anos, por tudo, por favor, faça. Me envie essa carta. Mentira, por favor leia, leia!, não falei. Pronto, toma, leve a carta, vá embora com ela.
E a carta chegou, no exato momento em que eu amava, digo, odiava, a gata. Chegou com as bordas coladas, envelope intacto, imaculada. Você nem abrira a carta. Você não leu, você não soube. Não quis. Junto da carta, por fora, colado no envelope, um bilhetinho em caneta vermelha.
"Como você me pediu, a carta. Por favor, cuide de Catha. Beijo"
Catharina, a nossa gata.
Deitei o envelope na mesa, você não abriu a carta!, desci lentamente, eu mesma, minha alma ao inferno da comiseração e desgraça e chorei tudo, porque você nem soube o que eu merecia ter lido.

